Severino

Carlos Severino

Carlos Severino foi o primeiro proto-candidato a assumir uma candidatura, tendo sido atribuído às suas listas a letra A por sorteio. Esta candidatura surgiu no âmbito do movimento “Salvar O Sporting”, que o próprio Severino encabeça.

Tendo sido responsável pela comunicação durante os consulados de José Roquette, Dias da Cunha e Soares Franco de 1998 a 2006, o desafio primordial de Carlos Severino, que se identitica como de rutura, será distanciar-se deste historial de má gestão desportiva e financeira. Curiosamente, ao mesmo tempo que pretende surgir como candidato independente, o que de alguma forma é trasmitido pelos poucos meios e capacidade mediática que a sua candidatura apresenta, tenta associar-se aos títulos conquistados nesse período. Carlos Severino, para ser considerado realmente presidenciável, não pode ser assim tão incoerente – como poderia estar um acessor de comunicação associado aos méritos desportivos mas não aos deméritos financeiros e de gestão, inclusivamente de imagem?

Após uma fase inicial em que se especulava sobre uma eventual ligação deste movimento e candidatura à Olivedesportos e respectivo esfera de influências, o que seria à partida contraditório com as boas relações que mantém com elementos como Marinho Neves e com o papel que desempenhou no Sporting, Severino acaba por apresentar listas para todos os órgãos sociais cujo principal destaque é a presença de elementos do poder autárquico da região metropolitana de Lisboa, principalmente Loures.

Relativamente às linhas programáticas que o distinguem dos restantes, Severino pretende implementar um “modelo Barcelona”, através de parceria com a Cruyff International, na formação do futebol do Sporting Clube de Portugal. Para além das questões que podem surgir a nível identitário e de respeito pelos técnicos actualmente responsáveis pela formação, fica a pergunta: pensará Severino que os escalões de formação precisam de intervenção assim tão prioritária? O foco principal não deveria ser sobre a interligação entre a formação e os escalão profissional? Fará sentido comprar a uma concorrente da Academia Sporting uma revisão de procedimentos através de serviços que a própria SAD vende a outros?

Nos aspectos financeiros, Carlos Severino parece estar alheado da realidade do clube. Pretende, e bem, a inversão do perfil de dívida do Universo Sporting (dizendo que quer fugir do paradigma “mais dívida para tentar alavancar os resultados desportivos”), mas não mostra conhecer caminhos para o fazer. Pretende a responsabilização de anteriores gestões pelos seus resultados e práticas de gestão, mas parece ter um historial demasiado signifiativo com estas para o fazer com a profundidade necessária.

No desenvolvimento da campanha eleitoral, Severino defendeu há uns dias Rui Patrício e Ricky van Wolfswinkel do julgamento em praça pública que Jesualdo Ferreira permitiu na sequência do desaire frente ao Estoril. Jesualdo pode ter optado fazê-lo no âmbito das suas competências e de acordo com a sua estratégia de motivação e gestão de plantel. No entanto, pareceu-me pouco prudente empurrar os dois mais relevantes activos (embora apenas desportivamente, acreditando em notícias recentes) para a linha de fogo quando existiam certamente outras formas de chamar os jogadores à atenção.

Não tendo acertado totalmente na forma como o fez, ao levantar suspeitas acerca do real papel de Jesualdo no Sporting, não posso dizer que discorde da mensagem. O treinador principal do Sporting está lá para obter títulos desportivos e valorizar os atletas, não para os entregar para julgamentos em praça pública ou para sugerir mudanças de ares como prémio de desempenho quando é o próprio jogador que define o Sporting como clube de topo. Quanto à ameaça aos infiltrados no Sporting, não deixa de ser uma mensagem importante, embora não concorde que seja feita através da abertura de possíveis incompatibilidades entre equipa técnica e plantel.

No cômputo geral, Severino parece ser um candidato pouco representativo mas que ainda assim pode vir a ter alguma importância na campanha. Mesmo se acabar por culminar num resultado entre 5 a 10%, pode servir de “lebre” para o surgimento e debate de questões de fundo como as infiltrações dos rivais ou a responsabilização efectiva por aumentos de passivo que, não sendo questões urgentes na gestão o clube, permitirão diferenciar os reais candidatos à presidência do clube.

Escolhas

Depois da demissão em bloco dos órgãos sociais a 6 de Fevereiro, decisão tomada de forma a evitar a Assembleia Geral Extraordinária tão corajosamente convocada pelos sócios do clube, decorrerá nos próximos dias a campanha eleitoral para as eleições a ter lugar no próximo dia 23 de Março.

Decidi fazer um esforço pessoal para contribuir da forma mais elevada e informativa que me for possível para a interpretação da campanha. Tentarei evitar os alçapões da desonestidade intelectual e contra-informação que se espalham um pouco por todo o lado, sem no entanto deixar de defender as escolhas que me parecerem mais adequadas tendo em conta o presente momento do clube, o perfil e as estratégias dos candidatos e restantes actores neste processo. Não haverá imparcialidade mas também não quero que haja alienação de opiniões contrárias, desde que fundamentadas e honestas, para contribuir para um debate informado.  De forma a que, no dia 24 de Março, ganhe o Sporting Clube de Portugal.

Sem dignidade nem honra

Godinho e Prosegur

Os desenvolvimentos das últimas horas têm concretizado algo que já se antecipava há demasiado tempo: Godinho Lopes e a sua direcção, ignorando todos os seus resultados catastróficos e demonstrando a sua incapacidade comprovada de emendar a mão e melhorar desempenhos de forma sustentada, pretendem ignorar a base e fundamento do clube, os seus sócios.

Por crença inultrapassável, incapacidade de permitir contraditório, orgulho ou simples casmurrice, Godinho Lopes e a sua direcção parecem dispostos a impedir que se cumpram os estatutos, invocando as eternas questões de estabilidade, da sensibilidade da equipa principal de futebol e da instituição como negociador – mesmo quando os resultados desportivos melhoram e apesar de, eles próprios, promoverem mais uma “reconversão de activos” em condições negociais por si próprios diminuídas.

Absorvido pela alarmante destruição de valor patrimonial, reputacional e negocial, Godinho Lopes esquece-se do essencial: com esta postura, acabará por alienar a força associativa do clube – efectivamente esvaziando a sua legitimidade e contribuindo para a crispação e desagregação do universo sportinguista, contribuindo para que no futuro se torne ainda mais difícil recuperar. Por ele ou por qualquer outro, alinhado ou não com a sua linha e herança.

Ficarão na sua consciência as consequências dos seus actos.

Espiral viciosa

Castro "Nobre" Guedes e Godinho Lopes

Analisemos o percurso de Godinho Lopes e esqueçamos por um instante:

  • A forma como correram as eleições, tanto a campanha como o acto em si e a própria gestão do processo pós-eleitoral;
  • As promessas por cumprir, onde se inclui o seu rarefeito – e eleito – projecto;
  • A adequação ou falta de adequação desse mesmo projecto à situação real do país, dos sócios e simpatizantes sportinguistas, e do próprio clube e empresas dependentes;
  • As opções e filosofias de investimento, estruturação do clube, direcção técnica, comunicação e gestão de expectativas;
  • Os resultados desportivos alcançados, onde se inclui a pior média de vitórias em futebol da história do clube, a pior média de derrotas em futebol da história do clube e o continuar do lento definhar competitivo na maior parte das modalidades do clube com algumas valorosas excepções como o futsal, o ténis de mesa ou o hoquéi em patins;
  • O surgimento de algumas polémicas e menos claras situações de alegados actos de pressão sobre núcleos, sócios e simpatizantes, incluindo o arregimento de claques para que a contestação não suba a níveis incómodos;
  • Os resultados financeiros alcançados, sublinhados pelo relatório do primeiro trimestre da presente temporada da SAD onde, apesar com um aumento de passivo na ordem dos 13,4M€, os resultados líquidos ficaram por -7,7M€ (uma leitura mais cuidada permite até descortinar um abatimento de 7M€ dívida de longo prazo – com juro de 4,99% – através da contracção de dívida em curto prazo no mesmo valor, por livrança – com juro de 7,40% – por certo uma manobra contabilística cheia de vantagens fora da compreensão do sócio ou accionista comum);
  • Que a sustentação financeira da sua gestão, embora facilitada pelo peso que o próprio e os resistentes dirigentes – com Ricciardi e Castro “Nobre” Guedes à cabeça – tenham ainda junto dos credores, seja obtida em nome da instituição mas alegadamente através de garantias pessoais (o que, em cenário de incumprimento, resulta em dívida do clube aos próprios dirigentes, como já visto no caso do passe de Daniel Carriço, o que parece ser uma manobra tirada do manual de Vale e Azevedo);
  • A incapacidade de captação de investimento exterior ao sistema bancário, apesar das sucessivas viagens de charme e publicitação;
  • A aparentemente negligente preparação do processo de inconvertibilidade das VMOC, estabelecida para dia 20 de Janeiro de 2013, quer através do já aprovado projecto de fusão SAD-SPM, quer através de outro tipo de medida que permita salvaguardar o interesse do Clube.

 

Godinho Lopes não demonstra ter capacidade de liderança para, mesmo que não inverter, pelo menos controlar a queda desportiva e financeira do Sporting Clube de Portugal. Apesar de mostrar razoável resistência à pressão e a pele grossa necessárias ao desempenho da função, Godinho Lopes é um homem sem rumo definido. As suas sucessivas ideias para o futebol, a modalidade agregadora e financeiramente potenciadora do universo Sporting, vão se substituindo sem estratégia aparente, à medida que as abordagens antecessoras falham, sem que Godinho Lopes pareça acreditar em nenhuma delas o suficiente para as defender.

Numa espiral viciosa, Godinho Lopes persiste, não reconhecendo que com cada nova redefinição estratégica destrói o pouco capital de esperança que ainda vai granjeando junto dos sócios e adeptos, corrói a disponibilidade e unidade dos plantéis e equipas técnicas, e afunda o Clube e a SAD numa estratégia financeira sem futuro.

Godinho Lopes não demonstra ter o que é necessário para liderar no mundo do desporto, principalmente na situação sensível em que o Clube e a SAD se encontram e tendo em conta as condicionantes muito especiais que o Sporting tem que vencer para conseguir singrar quer desportivamente quer mediaticamente.

Para vencer, o Sporting tem que ser liderado para estar unido, tem que ser competente, e tem que ser capaz de motivar os sportinguistas. Cada vez menos, Godinho Lopes parece capaz de o conseguir.

Não o reconhecendo, Godinho Lopes deixa apenas uma solução para os cada vez mais sócios que o reconhecem: a convocação de uma Assembleia Geral Extraordinária com o objectivo de destituir os órgãos sociais. Os sócios que se revejam nesta solução podem – devem – participar no movimento Dar um Rumo ao Sporting.

O sapo que ferve

Fonte: Wikipedia

The boiling frog story is a widespread anecdote describing a frog slowly being boiled alive. The premise is that if a frog is placed in boiling water, it will jump out, but if it is placed in cold water that is slowly heated, it will not perceive the danger and will be cooked to death. The story is often used as a metaphor for the inability of people to react to significant changes that occur gradually.

(Há muito tempo que perdi as palavras, a capacidade, para reflectir sobre a situação do Sporting. Para compensar, hoje trago esta metáfora, para que todos possamos reflectir sobre a temperatura a que está o caldo.)

Dar rumo ao Sporting

Passaram noventa e seis dias desde o meu último artigo.

Noventa e seis dias nos quais o clube tem passado por demasiados problemas, principalmente internos, para que se possa continuar a acreditar na direcção em funções. Não se trata apenas de discordar de algumas das opções estratégicas e administrativas feitas por Godinho Lopes e os seus apaniguados.

Neste momento o Sporting Clube de Portugal encontra-se num ponto de tamanha desagregação e desestruturação organizativa que só com “exemplos e liderança de homens singulares” conseguirá ultrapassar. E nem Godinho Lopes nem nenhum dos seus escolhidos parece ter o que é preciso.

Foi criado ontem um “movimento de sócios do Sporting Clube de Portugal que pretende avançar com uma Assembleia Geral Extraordinária, com ponto único: eleições antecipadas.

Transcrevo aqui algumas das ideias chave do respectivo manifesto. Informem-se e participem – o Sporting precisa de todos para sobreviver.

Com pouco tempo se revelou que não só a Direcção liderada pelo Eng. Godinho Lopes foi incapaz de romper com a decadente continuidade de anos prévios, como até a acentuou ainda mais:
  • Falhou desportivamente no Futebol:
  •  a primeira época agravou a tendência de um Sporting sem títulos, longe do Campeonato e fora do pódio (afastado por isso da Liga dos Campeões);
  • a segunda época arranca e já o Sporting se encontra mais próximo da descida de divisão que da conquista do Campeonato;
  • nas restantes modalidades: um dos anos com menos títulos da história recente do Sporting.
  • Falhou financeiramente:

O presente é pior que o passado:

  • não só não surgiu o prometido fundo de 100 milhões, como ainda se agravou mais a situação financeira do clube com um novo empréstimo de 40 milhões;
  • o passivo do Clube cresce dramaticamente, ao invés de se reduzir para os 200 milhões jurados;
  • os elevadíssimos investimentos no plano desportivo, largamente superiores aos de anos passados, não surtiram efeitos;

O futuro está comprometido:

  • aumentaram os encargos graças aos novos empréstimos pedidos à banca;
  • grandes fatias dos passes pertencentes a jogadores influentes e/ou com potencial no plantel que foram vendidos, alguns abaixo do valor de compra (o Sporting detém 20% de Salomão; 30% de Carrillo, André Santos e Cédric; 35% de Wilson Eduardo, André Martins, Rinaudo, Wolfswinkel e Insua; 37,5% de Schaars) – perde-se por isso dinheiro no imediato, vendendo por menos do que se comprou, e perde-se uma fonte de rendimento crucial no futuro, já que pouco lucro da venda de jogadores reverterá para o Sporting.
  • Falhou na Direcção

Promessas eleitorais estruturantes provaram-se fraudulentas:  

  • não existe um fundo de 100 milhões;  
  • o passivo está a crescer, não a diminuir;  
  • a renegociação com a banca resultou, afinal, num novo empréstimo e com juros mais elevados (9,25%) 
  • não há estabilidade na estrutura do Clube, que aos poucos se desintegra; 
  • e outras discrepâncias entre o dito e feito;
  • Dois Vice-Presidentes, homens de confiança escolhidos a dedo pelo Presidente, demitiram-se no espaço de um ano: um deles associou o até então impoluto nome do Sporting Clube de Portugal a condutas criminosas.
  • O Sporting procura o terceiro treinador para a equipa de futebol no espaço de pouco mais de uma época: 
  1. os dois prévios continuam a receber ordenado sem cumprirem qualquer função dentro do Clube;  
  2. numa incapacidade sem precedentes, o Sporting encontra-se sem treinador há mais de uma semana.

Uma crença, uma fé.

Nos tempos mais difíceis desde a sua fundação, o Sporting Clube de Portugal tem conseguido prevalecer graças a exemplos e liderança de homens singulares. José Alvalade, João Rocha, Moniz Pereira, Francisco Stromp. Com um universo tão plural composto por inúmeros sócios e adeptos, só exemplos de carisma, dedicação e espírito leonino como estes conseguem promover união a níveis mais profundos. Só com os pés firmemente fincados nestas raízes de abnegação, sacrifício e vontade conseguiremos ultrapassar as tensões internas que nos limitam e sarar as feridas que persistem em nos infectar.

No dia do seu aniversário foi anunciado que o novo Pavilhão desportivo, a construir no Complexo Alvalade XXI, terá o nome estatutário de João Rocha. Uma homenagem que, embora ainda dependa da aprovação em Assembleia Geral e só existirá quando as diversas modalidades Sportinguistas de pavilhão lhe possam de facto chamar de casa, é justa e adequada a alguém que tanto fez pelo Sporting Clube de Portugal e pelo seu ecletismo.

Moniz Pereira participou ontem na cerimónia de despedida dos atletas sportinguistas que participarão nos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres, após algumas gerações de participações. Apesar das baixas de relevo – Francis Obikwelu, Naide Gomes e Rui Silva – participarão ainda dezanove atletas na prova maior do desporto mundial, que se espera que honrem os países que representam e o clube que os apoia.

Por estes dias, as equipas de futebol sénior começam as suas épocas desportivas. Embora ainda haja muito por definir – por exemplo, a equipa B ainda não tem definido o campo de jogos – há pequenos passos que deveriam ser tomados para intensificar a relação entre o clube e os seus apoiantes.

Tenho lido por aí uma excelente ideia que simultaneamente contribui para a homenagem e respeito à herança centenária leonina e para a consolidação do potencial e identidade mediática da equipa secundária: tornar o equipamento Stromp no equipamento principal da equipa B. Tal traria vantagens para os adeptos (que finalmente vêm o histórico equipamento ganhar alguma da relevância que merece), para o clube (por aprofundar a sua relação com a sua história), para os jogadores da equipa B (aproveitando a oportunidade para transmitir o peso de uma camisola centenária), e para os patrocinadores (que poderiam ver os seus investimentos melhor compensados).

Por outro lado, aumentar a cobertura mediática interna às diversas sessões de trabalho dos vários plantéis, com iniciativas como esta, representaria um investimento significativo para aproximar o clube daqueles que por ele sofrem e torcem. O Sporting tem que reforçar os seus laços consigo próprio para conseguir avançar.

O significado de um leão conturbado

O Sporting Clube de Portugal comemorou ontem 106 anos de história. Uma história verídica, profunda e cheia de luta, sofrimento, sacrifício, superação e sucesso.

Neste momento particular da história, o clube e o conjunto de pessoas que o define – os sportinguistas – estão a atravessar uma fase de polarização. Por entre vários graus de cinzento, os verdes mais claros e mais escuros encontraram na última Assembleia Geral um palco para demonstrar os seus contrastes. Participaram alguns sócios que, eventualmente sofrendo como os restantes pelos maus resultados mais recentes, escolhem o caminho que lhes parece mais correcto: a promoção de estabilidade, a defesa institucional e estatutária dos órgãos sociais e das suas estratégias. Participaram outros sócios que, vendo o seu clube definhar num aparente marasmo de más negociações e gestão, contratos assinados de cruz e faltas de carisma, reagem e tentam resgatar da degradação algo que também é seu.

É grave que não se questione que a SAD exija taxas de juro de empréstimo ao Clube de que faz parte e que supostamente serve, ou que não se consiga evitar partilhar um complexo desportivo, para o qual investimos fortemente, com o rival da cidade? É.

É grave que, numa conjuntura tão difícil como a presente e com um investimento tão forte e arriscado a gerir, se criem animosidades e dificuldades à gestão em vez de apontar as falhas com seriedade e evitando demagogias, efectivamente informando os consócios? Também é.

Também é grave que continuemos tão sensíveis às influências externas inclusivamente a custo do progresso do clube e melhoria da sua gestão. Um leão conturbado fraqueja quando confrontado com as suas fraquezas. Infelizmente não tive oportunidade de participar na Assembleia, mas do que assisti pareceu-me que as boas intenções tanto dos órgãos sociais como da massa associativa estão rodeadas por irracionalidades, por buscas por protagonismo e por demagogia.

O Sporting precisa de ser cuidado. Tanto pelos órgãos sociais como pelos sócios, e de forma a que uns não sejam encarados pelos outros como uma corja conspirativa e os segundos não sejam encarados como empecilhos e terroristas pelos primeiros. Um leão crispado consigo próprio não consegue avançar.

Clube de Portugal

O que devia significar para o Sporting Clube de Portugal ter tantos atletas e antigos atletas seleccionados para a Selecção Nacional?

Não existe outro clube, nacional ou internacional, que tenha tido uma preponderância tão forte nas carreiras dos seleccionados. Nenhum. Por mais títulos que tenham acumulado ou por melhor imprensa que outros clubes possam ter, nenhum outro representou tanto para esta geração de jogadores portugueses. Tal facto é e terá que ser sempre um orgulho.

Sendo um elogio à capacidade de prospecção e formação do Sporting, este facto é também uma chamada de atenção para o tipo de gestão desportiva levado a cabo genericamente ao longo da última década. Se conseguimos reunir os melhores talentos nacionais nas etapas formativas e em início de carreira, porque é tão difícil mantê-los e conseguir resultados desportivos e económicos com eles? Será mais caro investir em jovens de formação ou em jovens bem agenciados? Quem sai a ganhar ou a perder com tal mudança de paradigma de investimento e gestão?

À partida, o ponto chave para a abordagem à gestão de plantel parece ser a mobilização dos adeptos. O produto da casa, que é visto a crescer e a errar, tem uma margem de erro consequentemente menor que uma qualquer transferência inflacionada – e o contrário para a capacidade de mobilização e criação de expectativas. Um bom indicador para o ponto de equilíbrio entre formação e importação de talento para a época de 2012/13 será o equilíbrio entre as apostas feitas em Diego Rubio e Betinho. Apesar de terem tido até agora níveis de diferentes exigência e competitividade, apenas distam em dois meses de idade – e as escolhas que venham a ser tomadas na gestão das respectivas carreiras demonstrarão o tipo de estratégia escolhido.

Não deveria a instituição que mais tem feito pelo futebol português contribuir para a efectiva valorização do talento nacional? Como podem os orgãos sociais do Sporting ensinar os sportinguistas a respeitar mais os seus atletas de formação, e como pode o sportinguista obrigar os orgãos sociais do Sporting a não entrar em esquemas especulativos e redes de remuneração abusiva de agentes e fundos de investimento?

Como português, agrada-me que tenha existido – e acima de tudo que continue a existir – um clube que seja particularmente bom na identificação e desenvolvimento de jovens talentos futebolísticos, do qual a selecção do meu país possa beneficiar. Como sportinguista, lamento que não tenha sido possível congregar os pontos mais fortes de mais uma geração do futebol português para o sucesso do clube que mais fez para os potenciar. E temo que esta capacidade esteja a diminuir, quando poderia ser a via mais segura para a estabilização do futebol e do clube.

Onze-doze

Nos últimos quarenta e nove dias a época desportiva do futebol do Sporting acabou com uma encenação, um bom jogo e um desperdício. Friamente, foi um final adequado para uma época agridoce. Demasiados casos, demasiadas polémicas, demasiada influência da arbitragem nos resultados.

Um campeonato irregular, com alguns bons resultados mas também com mais más exibições do que excelentes. Uma boa campanha europeia e outra boa campanha na Taça de Portugal, ambas estragadas por falta de capacidade emocional de lidar com pressão e falta de ambição e pragmatismo nos momentos decisivos. Se bem que se aceitem estas falhas numa equipa tão pouco rotinada quanto esta, ficou a ideia que uma maior capacidade de motivação e galvanização da equipa poderia ter permitido a obtenção de pelo menos um título nesta época.

A secção de futsal joga amanhã o título de campeão desta época, podendo alcançar o tricampeonato após quatro jogos geralmente bem disputados mas em que tem faltado alguma capacidade de concretização. É incrível que mesmo num espaço tão pequeno e com um jogo tão rápido se consiga fazer do anti-jogo e do cinismo uma via para o sucesso. Pondo de parte a visão clubística, não seria justo que a equipa que fez mais para vencer no conjunto dos quatro jogos até agora realizados viesse a perder o título para um conjunto e estilo de jogo cínico e provocatório, ainda que melhor financiado.

Nas restantes modalidades acabou a época em andebol com uma Taça de Portugal vencida, a mudança da equipa técnica e um plantel desejavelmente mais maduro. O ténis de mesa teve uma época notável, com a vitória do campeonato nacional e da taça, para além das conquistas nos escalões de formação. No atletismo, Naide Gomes e Obikewlu, figuras centrais na missão portuguesa e sportinguista aos Jogos Olímpicos de 2012, sofreram duras lesões na disputa dos campeonatos nacionais, pelo que estarão provavelmente arredados da competição.

Enquanto procura o sucesso desportivo que é a sua matriz identitária, o universo Sporting Clube de Portugal tenta sair das areias movediças financeiras em que se encontra alavancando-se com forte investimento imediato, fazendo depender dos resultados no curto prazo e da entrada rápida de dinheiro fresco a sustentabilidade do seu modelo de gestão.

O sucesso desta estratégia dependerá profundamente da preparação da próxima época. A abordagem ao defeso e à gestão dos planteis – onde se inclui a equipa B – determinará o sucesso dos próximos anos, tanto económica como desportivamente, e portanto, institucionalmente. Assinale-se no entanto que, e planeio desenvolver mais aprofundadamente esta reflexão noutra oportunidade, o sucesso desta estratégia também dependerá do enquadramento interno político e estratégico dentro do Sporting e junto dos sportinguistas.