Category Archives: Futebol

Alvos preferenciais

Ricky

Ontem tivemos mais alguns excelentes exemplos, sintomáticos do que é ser Sporting Clube de Portugal no futebol português neste momento da sua e da nossa história.

O único ponta-de-lança do plantel, já vendido fora de mercado de transferências por suposta necessidade e suspeitável ganância, faz uma excelente exibição marcando os 3 golos e enviando um míssil à barra. Ricky, na sua curta carreira leonina, leva sete golos em quatro jogos contra o Braga (dois hat-tricks).

O recém-eleito presidente Bruno de Carvalho participa como delegado, sentando-se no banco e demonstrando mais envolvimento emocional e motivacional que muito poucos dos seus antecessores possuíram. Não sendo a atitude mais convencional, compensa em algo que faz falta ao Sporting para que consiga recuperar a sua identidade: raça e carisma.

André Martins também teve um papel preponderante no jogo de ontem, em particular enquanto a frescura física durou. Mostrou ter potencial para, numa época sem lesões ou desaparecimentos misteriosos, ser um titular essencial no onze da equipa. Um pouco à semelhança do que se passou com Cédric: depois de ter sido escudado das suas exibições mais fracas, regressa agora à titularidade no lugar do seu substituto. Que tenha a capacidade de agarrar o lugar, e teremos um quarteto defensivo mais comspetente e talentoso na próxima época. A propósito, julgo que o comportamento do quarteto defensivo após a (injusta) expulsão poderá ajudar o treinador a rever a sua abordagem. Porque não apostar em Rojo-Ilori-Dier-Cedric?

Quem assistiu ao jogo prestando atenção ao comentadores, ou quem valorize a opinião de paineleiros profissionais, diria que o jogo de
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Clássico paradigmático

Rui Patrício

Hoje assistiu-se a mais um exemplo paradigmático do que têm sido os clássicos não só em Alvalade mas principalmente no seguimento da ponte do Freixo. Um jogo com demasiado protagonismo dos seus árbitros, com critérios desiguais na marcação de faltas e atribuição de cartões, expulsões evitadas para um lado e criadas para o outro. Inclusivamente quer Jesualdo Ferreira quer Oceano Cruz foram expulsos, o que levanta problemas para a orientação técnica da equipa durante os respectivos castigos.

Fora destes aspectos, destacaram-se principalmente os jovens leões que, pela sua entrega e capacidade de sofrimento, mereciam mais os três pontos que os profissionais do aproveitamento de benefícios que se lhes opuseram. Com mais frieza e espírito de entreajuda na manobra ofensiva teria sido possível vencer a outra equipa que, apesar de ter conseguido dominar no que toca à posse de bola, pouco conseguiu fazer. Ainda assim, acho desadequado exigir ao presente plantel que, nas presentes condições de motivação e competitividade, apresente índices de aproveitamento e desempenho mais elevados. Tendo sido um passo importante resistir a um dos líderes pontuais do campeonato (ainda que em casa), a gestão da equipa e das expectativas dos adeptos tem que ser focada na subida de um degrau de cada vez. Até porque, como hoje ficou bem demonstrado, temos demasiados problemas exteriores para enfrentar sem que haja uma pacificação e reorganização interna.

Espiral viciosa

Castro "Nobre" Guedes e Godinho Lopes

Analisemos o percurso de Godinho Lopes e esqueçamos por um instante:

  • A forma como correram as eleições, tanto a campanha como o acto em si e a própria gestão do processo pós-eleitoral;
  • As promessas por cumprir, onde se inclui o seu rarefeito – e eleito – projecto;
  • A adequação ou falta de adequação desse mesmo projecto à situação real do país, dos sócios e simpatizantes sportinguistas, e do próprio clube e empresas dependentes;
  • As opções e filosofias de investimento, estruturação do clube, direcção técnica, comunicação e gestão de expectativas;
  • Os resultados desportivos alcançados, onde se inclui a pior média de vitórias em futebol da história do clube, a pior média de derrotas em futebol da história do clube e o continuar do lento definhar competitivo na maior parte das modalidades do clube com algumas valorosas excepções como o futsal, o ténis de mesa ou o hoquéi em patins;
  • O surgimento de algumas polémicas e menos claras situações de alegados actos de pressão sobre núcleos, sócios e simpatizantes, incluindo o arregimento de claques para que a contestação não suba a níveis incómodos;
  • Os resultados financeiros alcançados, sublinhados pelo relatório do primeiro trimestre da presente temporada da SAD onde, apesar com um aumento de passivo na ordem dos 13,4M€, os resultados líquidos ficaram por -7,7M€ (uma leitura mais cuidada permite até descortinar um abatimento de 7M€ dívida de longo prazo – com juro de 4,99% – através da contracção de dívida em curto prazo no mesmo valor, por livrança – com juro de 7,40% – por certo uma manobra contabilística cheia de vantagens fora da compreensão do sócio ou accionista comum);
  • Que a sustentação financeira da sua gestão, embora facilitada pelo peso que o próprio e os resistentes dirigentes – com Ricciardi e Castro “Nobre” Guedes à cabeça – tenham ainda junto dos credores, seja obtida em nome da instituição mas alegadamente através de garantias pessoais (o que, em cenário de incumprimento, resulta em dívida do clube aos próprios dirigentes, como já visto no caso do passe de Daniel Carriço, o que parece ser uma manobra tirada do manual de Vale e Azevedo);
  • A incapacidade de captação de investimento exterior ao sistema bancário, apesar das sucessivas viagens de charme e publicitação;
  • A aparentemente negligente preparação do processo de inconvertibilidade das VMOC, estabelecida para dia 20 de Janeiro de 2013, quer através do já aprovado projecto de fusão SAD-SPM, quer através de outro tipo de medida que permita salvaguardar o interesse do Clube.

 

Godinho Lopes não demonstra ter capacidade de liderança para, mesmo que não inverter, pelo menos controlar a queda desportiva e financeira do Sporting Clube de Portugal. Apesar de mostrar razoável resistência à pressão e a pele grossa necessárias ao desempenho da função, Godinho Lopes é um homem sem rumo definido. As suas sucessivas ideias para o futebol, a modalidade agregadora e financeiramente potenciadora do universo Sporting, vão se substituindo sem estratégia aparente, à medida que as abordagens antecessoras falham, sem que Godinho Lopes pareça acreditar em nenhuma delas o suficiente para as defender.

Numa espiral viciosa, Godinho Lopes persiste, não reconhecendo que com cada nova redefinição estratégica destrói o pouco capital de esperança que ainda vai granjeando junto dos sócios e adeptos, corrói a disponibilidade e unidade dos plantéis e equipas técnicas, e afunda o Clube e a SAD numa estratégia financeira sem futuro.

Godinho Lopes não demonstra ter o que é necessário para liderar no mundo do desporto, principalmente na situação sensível em que o Clube e a SAD se encontram e tendo em conta as condicionantes muito especiais que o Sporting tem que vencer para conseguir singrar quer desportivamente quer mediaticamente.

Para vencer, o Sporting tem que ser liderado para estar unido, tem que ser competente, e tem que ser capaz de motivar os sportinguistas. Cada vez menos, Godinho Lopes parece capaz de o conseguir.

Não o reconhecendo, Godinho Lopes deixa apenas uma solução para os cada vez mais sócios que o reconhecem: a convocação de uma Assembleia Geral Extraordinária com o objectivo de destituir os órgãos sociais. Os sócios que se revejam nesta solução podem – devem – participar no movimento Dar um Rumo ao Sporting.

Uma crença, uma fé.

Nos tempos mais difíceis desde a sua fundação, o Sporting Clube de Portugal tem conseguido prevalecer graças a exemplos e liderança de homens singulares. José Alvalade, João Rocha, Moniz Pereira, Francisco Stromp. Com um universo tão plural composto por inúmeros sócios e adeptos, só exemplos de carisma, dedicação e espírito leonino como estes conseguem promover união a níveis mais profundos. Só com os pés firmemente fincados nestas raízes de abnegação, sacrifício e vontade conseguiremos ultrapassar as tensões internas que nos limitam e sarar as feridas que persistem em nos infectar.

No dia do seu aniversário foi anunciado que o novo Pavilhão desportivo, a construir no Complexo Alvalade XXI, terá o nome estatutário de João Rocha. Uma homenagem que, embora ainda dependa da aprovação em Assembleia Geral e só existirá quando as diversas modalidades Sportinguistas de pavilhão lhe possam de facto chamar de casa, é justa e adequada a alguém que tanto fez pelo Sporting Clube de Portugal e pelo seu ecletismo.

Moniz Pereira participou ontem na cerimónia de despedida dos atletas sportinguistas que participarão nos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres, após algumas gerações de participações. Apesar das baixas de relevo – Francis Obikwelu, Naide Gomes e Rui Silva – participarão ainda dezanove atletas na prova maior do desporto mundial, que se espera que honrem os países que representam e o clube que os apoia.

Por estes dias, as equipas de futebol sénior começam as suas épocas desportivas. Embora ainda haja muito por definir – por exemplo, a equipa B ainda não tem definido o campo de jogos – há pequenos passos que deveriam ser tomados para intensificar a relação entre o clube e os seus apoiantes.

Tenho lido por aí uma excelente ideia que simultaneamente contribui para a homenagem e respeito à herança centenária leonina e para a consolidação do potencial e identidade mediática da equipa secundária: tornar o equipamento Stromp no equipamento principal da equipa B. Tal traria vantagens para os adeptos (que finalmente vêm o histórico equipamento ganhar alguma da relevância que merece), para o clube (por aprofundar a sua relação com a sua história), para os jogadores da equipa B (aproveitando a oportunidade para transmitir o peso de uma camisola centenária), e para os patrocinadores (que poderiam ver os seus investimentos melhor compensados).

Por outro lado, aumentar a cobertura mediática interna às diversas sessões de trabalho dos vários plantéis, com iniciativas como esta, representaria um investimento significativo para aproximar o clube daqueles que por ele sofrem e torcem. O Sporting tem que reforçar os seus laços consigo próprio para conseguir avançar.

Clube de Portugal

O que devia significar para o Sporting Clube de Portugal ter tantos atletas e antigos atletas seleccionados para a Selecção Nacional?

Não existe outro clube, nacional ou internacional, que tenha tido uma preponderância tão forte nas carreiras dos seleccionados. Nenhum. Por mais títulos que tenham acumulado ou por melhor imprensa que outros clubes possam ter, nenhum outro representou tanto para esta geração de jogadores portugueses. Tal facto é e terá que ser sempre um orgulho.

Sendo um elogio à capacidade de prospecção e formação do Sporting, este facto é também uma chamada de atenção para o tipo de gestão desportiva levado a cabo genericamente ao longo da última década. Se conseguimos reunir os melhores talentos nacionais nas etapas formativas e em início de carreira, porque é tão difícil mantê-los e conseguir resultados desportivos e económicos com eles? Será mais caro investir em jovens de formação ou em jovens bem agenciados? Quem sai a ganhar ou a perder com tal mudança de paradigma de investimento e gestão?

À partida, o ponto chave para a abordagem à gestão de plantel parece ser a mobilização dos adeptos. O produto da casa, que é visto a crescer e a errar, tem uma margem de erro consequentemente menor que uma qualquer transferência inflacionada – e o contrário para a capacidade de mobilização e criação de expectativas. Um bom indicador para o ponto de equilíbrio entre formação e importação de talento para a época de 2012/13 será o equilíbrio entre as apostas feitas em Diego Rubio e Betinho. Apesar de terem tido até agora níveis de diferentes exigência e competitividade, apenas distam em dois meses de idade – e as escolhas que venham a ser tomadas na gestão das respectivas carreiras demonstrarão o tipo de estratégia escolhido.

Não deveria a instituição que mais tem feito pelo futebol português contribuir para a efectiva valorização do talento nacional? Como podem os orgãos sociais do Sporting ensinar os sportinguistas a respeitar mais os seus atletas de formação, e como pode o sportinguista obrigar os orgãos sociais do Sporting a não entrar em esquemas especulativos e redes de remuneração abusiva de agentes e fundos de investimento?

Como português, agrada-me que tenha existido – e acima de tudo que continue a existir – um clube que seja particularmente bom na identificação e desenvolvimento de jovens talentos futebolísticos, do qual a selecção do meu país possa beneficiar. Como sportinguista, lamento que não tenha sido possível congregar os pontos mais fortes de mais uma geração do futebol português para o sucesso do clube que mais fez para os potenciar. E temo que esta capacidade esteja a diminuir, quando poderia ser a via mais segura para a estabilização do futebol e do clube.

Onze-doze

Nos últimos quarenta e nove dias a época desportiva do futebol do Sporting acabou com uma encenação, um bom jogo e um desperdício. Friamente, foi um final adequado para uma época agridoce. Demasiados casos, demasiadas polémicas, demasiada influência da arbitragem nos resultados.

Um campeonato irregular, com alguns bons resultados mas também com mais más exibições do que excelentes. Uma boa campanha europeia e outra boa campanha na Taça de Portugal, ambas estragadas por falta de capacidade emocional de lidar com pressão e falta de ambição e pragmatismo nos momentos decisivos. Se bem que se aceitem estas falhas numa equipa tão pouco rotinada quanto esta, ficou a ideia que uma maior capacidade de motivação e galvanização da equipa poderia ter permitido a obtenção de pelo menos um título nesta época.

A secção de futsal joga amanhã o título de campeão desta época, podendo alcançar o tricampeonato após quatro jogos geralmente bem disputados mas em que tem faltado alguma capacidade de concretização. É incrível que mesmo num espaço tão pequeno e com um jogo tão rápido se consiga fazer do anti-jogo e do cinismo uma via para o sucesso. Pondo de parte a visão clubística, não seria justo que a equipa que fez mais para vencer no conjunto dos quatro jogos até agora realizados viesse a perder o título para um conjunto e estilo de jogo cínico e provocatório, ainda que melhor financiado.

Nas restantes modalidades acabou a época em andebol com uma Taça de Portugal vencida, a mudança da equipa técnica e um plantel desejavelmente mais maduro. O ténis de mesa teve uma época notável, com a vitória do campeonato nacional e da taça, para além das conquistas nos escalões de formação. No atletismo, Naide Gomes e Obikewlu, figuras centrais na missão portuguesa e sportinguista aos Jogos Olímpicos de 2012, sofreram duras lesões na disputa dos campeonatos nacionais, pelo que estarão provavelmente arredados da competição.

Enquanto procura o sucesso desportivo que é a sua matriz identitária, o universo Sporting Clube de Portugal tenta sair das areias movediças financeiras em que se encontra alavancando-se com forte investimento imediato, fazendo depender dos resultados no curto prazo e da entrada rápida de dinheiro fresco a sustentabilidade do seu modelo de gestão.

O sucesso desta estratégia dependerá profundamente da preparação da próxima época. A abordagem ao defeso e à gestão dos planteis – onde se inclui a equipa B – determinará o sucesso dos próximos anos, tanto económica como desportivamente, e portanto, institucionalmente. Assinale-se no entanto que, e planeio desenvolver mais aprofundadamente esta reflexão noutra oportunidade, o sucesso desta estratégia também dependerá do enquadramento interno político e estratégico dentro do Sporting e junto dos sportinguistas.

Recta final de leão

A época aproxima-se do seu fim. Entretanto e para a Liga a equipa de futebol obteve uma vitória contra o Nacional da Madeira fora, com uma equipa de poupança, e outra vitória contra a Académica de Coimbra em casa, com a melhor equipa disponível mas mentalmente quebrada pelo afastamento na Liga Europa.

A eliminação na Liga Europa ficou marcada por alguma imaturidade. Imaturidade completamente compreensível e justificada, dada a inexperiência do colectivo e alguma falta de capacidade emocional para gerir e disputar jogos decisivos. Na primeira mão, um jogo de contornos épicos poderia ter tido um resultado mais tranquilo. Na segunda mão, um jogo tenso e com muita pressão tanto directa, no relvado, como indirecta, na bancada, ditou o afastamento da equipa. Pouca sorte e alguma dureza nos relvados, respeito mútuo nas bancadas e em redor dos estádios, e acabou o sonho europeu deste ano, na mesma altura em que tanto o futsal e o andebol perderam as suas meias finais.

Da época futebolística de 2011/2012 restam dois grandes objectivos: obter o terceiro lugar na Liga, sendo para isso necessário anular pelo menos três pontos em relação ao Braga com vantagem no confronto directo. Vencer a Taça de Portugal, dia 20 de Maio no Estádio Nacional.

Para o primeiro objectivo falta vencer a dois dos três primeiros classificados, para além das ameaças de desistência da União de Leiria da Liga que põem em risco a acessibilidade do terceiro lugar. Para o segundo objectivo, espera-se uma casa composta (faltam vender 728 bilhetes pelo Sporting e a FPF já não tem bilhetes para vender, apesar da AFL não ter disponibilizado os seus bilhetes para venda ao público).

Tanto um objectivo como o outro estão ao alcance do tabuleiro de sombras e fumos que o futebol português é. Cá estaremos para ver como acaba a época; para já, amanhã joga-se a Norte da ponte do Freixo um proclamado jogo de consagração dos virtuais vencedores da Liga. Que seja um banho de futebol, sem casos, e que os ponha no seu lugar.

Mil águas de Abril

Desde o meu último artigo muito se tem passado no mundo do Sporting, em particular no seu futebol. Foram onze dias que podem servir de base para a reflexão que urge fazer sobre o Sporting como instituição e para o Sporting dos próximos anos. Gostava de me poder concentrar apenas nos aspectos desportivos – principalmente dada a importância do jogo de amanhã – mas há assuntos que têm de ser abordados.

Dia 9 aconteceu um grande jogo no José Alvalade contra o velho rival da cidade, que, com cabeça mais fria, poderia ter acabado com um resultado mais volumoso. Ainda assim, regista-se a superioridade leonina nos dois jogos com o rival, apesar de os dois resultados serem enganadores e enganadoramente equilibrados entre si.

Depois deste jogo, que foi o primeiro de uma sequência de cinco que fará defrontar a equipa leonina com os três primeiros classificados, Nacional da Madeira e Académica de Coimbra, surge um caso. Este novelo mediatico-policial tem vindo a crescer de escala, instabilizando a estrutura directiva do Clube cuja equipa tinha acabado de dificultar bastante as contas do título nacional a um dos primeiros classificados. Será decerto apenas uma coincidência que os dirigentes dos restantes adversários internos desta época partilhem órbitas.

O que inicialmente parecia uma denúncia anónima de corrupção transmitida via Sporting à FPF e PJ transformou-se rapidamente e graças a uma eficaz – ainda que ilegal e não-ética – ligação entre as instâncias policiais e mediáticas num tão português julgamento em praça pública de Paulo Pereira Cristóvão, com base em alegados factos alegadamente transmitidos por orgãos de alegada comunicação social alegadamente competentes.

Os factos conhecidos são muito poucos: apenas que Cristóvão terá sido pronunciado como arguido num processo de denúncia difamatória e que Rogério Alves será o seu representante neste processo. Pelo menos para já, a Polícia Judiciária não indicia corrupção, nem coacção, nem conspiração. Denúncia difamatória. O que não quer dizer que seja defensável – simplesmente aparenta que não haverá indícios que apontem para crimes de outra monta.

Numa reacção inicial (prontamente aceite por Godinho Lopes) que tem tanto de respeitável como de estatutoriamente impossível, Cristóvão suspende funções alegando os “superiores interesses do Sporting”, indicando que seguiria o processo em que é constituído como arguido sem envolver o Sporting Clube de Portugal.

Passado alguns dias, faz saber que quer regressar a funções, organizando-se para o efeito uma reunião do Conselho Directivo. Não obstante alegadas crispações, tensões internas e ameaças de demissão, Cristóvão é readmitido pela mão de Lopes que, prontamente, transmite por vídeo o seu apoio ao mesmo tempo que anuncia a abertura de um inquérito interno, aproveitando ainda para fazer passar o lema de inevitabilidade da fusão da SPM na SAD, tal como feito anteriormente por outras direcções em relação a outras operações ditas contabilísticas. Ontem, Cristóvão reassumiu funções defendendo que tem «muita obra para fazer até Agosto», sem referência aos anteriormente essenciais superiores interesses do Sporting.

Fazendo fé na generalidade das informações disseminadas na imprensa, Paulo Pereira Cristóvão representará algo que o Sporting há muito não tem – alguém que procure defender o Clube no submundo que define o futebol nacional, ainda que com métodos pouco ortodoxos, mesmo nesse contexto. Apesar de neste momento o processo se limitar ao crime de denúncia difamatória, criou-se a ideia de que Cristóvão terá simulado o crime para incriminar Cardinal, com base numa suposta rede de espionagem não só sobre as estruturas da arbitragem mas também sobre agentes desportivos de qualquer quadrante, incluindo os do Sporting.

Verificando-se a veracidade destas informações, o que significaria tal evolução? Pelo que a blogosfera leonina mostra, os sportinguistas dividem-se entre aqueles que aceitam que alguém suje as mãos e por inerência o Clube para o defender, um pouco à imagem do que alguns fazem há 30 anos ininterruptos, e os que preferem manter a sua visão limpa, fundeada em princípios de ética e de verdade no desporto, mesmo se isso representar uma secundarização mediática e eventualmente competitiva. Uma coisa é certa: a superioridade moral de nos identificarmos como diferentes está posta em causa, mesmo que seja só alegada e mediaticamente.

À margem destas considerações, o resultado final da reunião Conselho Directivo e as suas consequências mediáticas parecem indicar algo de muito significativo – Cristóvão será neste momento a personagem principal da direcção do Clube, ao demonstrar ter poder de alavancagem suficiente para poder abandonar e reivindicar o seu papel sem que ninguém se oponha. Por outro lado, o Conselho Directivo encontrar-se-á fracturado entre os que defenderam o regresso de Cristóvão, os que se lhe oposeram, e os que assinam de cruz qualquer decisão, desde que possam manter a sua representatividade institucional.

Esta fractura, apesar da imagem de união que Lopes quer fazer passar e suscitar nos demais sócios e adeptos, vai sendo minada por fora com alegados auxílios de dentro. Tal conturbação interior atesta a fragilidade da direcção, fazendo supor que não deverá sobreviver a complicações profundas do caso Cristóvão ou qualquer outro revés na sua estratégia, onde provavelmente se inclui o chumbo da fusão da SPM na Sporting SAD, a decidir durante a próxima semana. Mesmo no caso da fusão ser aprovada podem  ser convocadas eleições antecipadas, tal como Godinho Lopes já tinha indiciado; esperam-se portanto uma primavera e verão quentes.

Entretanto é anunciado um blackout pela Sporting SAD: Não deveria ser blackout do Conselho Directivo do Sporting Clube de Portugal? Se a ideia é limitar danos mediáticos deste caso, não faria mais sentido manter a actividade comunicacional associada ao futebol, com conferências de imprensa e entrevistas de jogadores, desde que responsavelmente aconselhados a não responder a perguntas de âmbito não desportivo, do que dar espaço aos orgãos de alegada comunicação social para irem alimentando a sua teia especulativa? Como serve um blackout mediático do futebol para motivar os sportinguistas para as batalhas do próximo mês, se abre espaço mediático para as agendas especulativas próprias dos ditos orgãos?

Até ao fim do mês o Sporting Clube de Portugal como um todo e várias das suas modalidades passam por momentos decisivos para esta época e para as próximas. Há que saber apoiar as equipas que envergam o leão ao peito, mas também é essencial ler e interpretar todas as movimentações e sinais e tomar uma parte activa da definição do que será o futuro do Sporting Clube de Portugal.

O Sporting Clube de Portugal vive de sucesso desportivo, e amanhã frente ao Athletic Bilbao será um excelente dia para demonstrar a importância que o apoio incondicional à equipa tem na demanda pela glória. Espera-nos um oponente forte, particularmente na posse de bola atacante, na capacidade de sofrimento e na atitude. Que a nossa abnegação,  concentração e raça, suportados por uma casa cheia de apoiantes,  sirva para os vencer!

Momentos decisivos

Num jogo de nervos e trabalho de equipa, os leões ultrapassam mais uma eliminatória na Liga Europa. Não foi particularmente bem jogado, mas ainda assim ficam algumas notas positivas da partida. A coragem de iniciar a partida com André Martins, que enquanto durou fisicamente foi uma das peças mais preponderantes da equipa do Sporting. O pragmatismo de fechar a zona defensiva quando começaram a faltar pernas e discernimento para mais. A inquestionável excelência que Rui Patrício continua a demonstrar de leão ao peito (até quando?).

Assim, o Sporting Clube de Portugal continua a fazer por cumprir o seu mais primordial desígnio: ser tão grande quanto os maiores da Europa. Futsal, Andebol, Futebol. Todas qualificadas para as meias-finais das competições europeias que disputam na presente época. De resto, alguns bons resultados a nível nacional como a obtenção da Taça de Portugal em Andebol e Ténis de Mesa e diversos títulos nacionais em Natação.

Foi anunciado há dias um protocolo com a Câmara Municipal de Odivelas para a criação de um pólo desportivo multi-disciplinar naquele concelho, por um período de 20 anos, incluindo (algumas?) das modalidades que esperam vir a beneficiar da construção do pavilhão desportivo nos terrenos do antigo Estádio José Alvalade. Tratar-se-ia de um passo importante em direcção a algo que falta há demasiado ao Sporting – um espaço mais comum, uma casa mais plural – ainda que algo longe do seu coração geográfico. No entanto, este comunicado veio a ser criticado pela Junta de Freguesia por aparente clubite. Veremos no que dá este imbróglio “político” e quais as suas consequências para a preparação das próximas épocas das modalidades do Sporting.

O anúncio deste protocolo surgiu numa entrevista dada por Godinho Lopes à RTP. Esta entrevista foi marcada profundamente pela incapacidade da jornalista responsável em abordar assuntos relevantes e de uma perspectiva profunda e não preconceituosa. É grotesco que um profissional de comunicação social escolha interromper uma descrição dos resultados obtidos pela maior potência desportiva nacional nesta época desportiva (incluindo a potencial quebra do recorde do Clube de atletas presentes nuns Jogos Olímpicos – de 18 para 24) para dizer algo tão oportunamente bacoco como “o senhor engenheiro sabe tão bem como eu que é no futebol que se centram não só as maiores atenções como os maiores investimentos”. Mas o objectivo do jornalista é investigar e informar ou é fomentar e moldar tendências de mercado? O objectivo do jornalismo desportivo é acompanhar e enaltecer o sucesso desportivo ou é, por exemplo, manter turbas satisfeitas com uma eliminatória perdida com duas derrotas?

Por outro lado, nessa entrevista perdeu-se uma bela oportunidade para informar e motivar os subscritores do empréstimo obrigacionistasócios do Clube e accionistas da SAD para as decisões que foram chamados a tomar sobre o projecto de fusão referido anteriormente, respectivamente a dia e 23, 24 e 27 do presente mês. Preocupa-me que uma decisão tão relevante para o futuro do Clube e da SAD esteja a ser tão pouco publicitada e potenciada. Saberão os Sportinguistas o que se planeia fazer, quais as suas vantagens e desvantagens? Pior – quererão os Sportinguistas saber?

Quanto ao futuro do futebol no curto prazo, espera-nos um derby no José Alvalade na próxima segunda-feira, dez dias antes da primeira mão das meias finais também no José Alvalade contra o Athletic Bilbao. Dois jogos muito importantes – um principalmente por auto-estima e afirmação nacional numa época francamente fraca, outro por todas as suas dimensões – para os quais importará ultrapassar as limitações físicas e de capacidade construtiva que se têm feito sentir sobre os jogadores e equipa.

Tudo depende da capacidade de Ricardo Sá Pinto e dos seus homens aplicarem a fundo o ethos do clube. Esforço, Dedicação e Devoção. Nada como os momentos vividos ontem de madrugada no Aeroporto da Portela e o apoio apaixonado do Estádio José Alvalade cheio de leões para os fazer sentir que tudo é possível.

Uma fusão que divide

No seguimento do artigo anterior e uma vez que já é público o projecto de fusão da SPM na SAD, julgo ser importante contrariar as tendências recentes e “despersonificar” a situação. Não se trata de quem diz defender os interesses do clube ou de quem tenta estabilizar a contabilidade da SAD.

Consultando o projecto de fusão, o mecanismo não poderia ser mais claro: para que a fusão seja feita, a SPM terá que proceder a um aumento de capital social via entradas em dinheiro no valor de 120 M€ efectuadas pelos seus accionistas  – Sporting Clube de Portugal (em 44%) e Sporting SGPS (em 56%) – o que equivale a uma pertença total ao Sporting Clube de Portugal. Este pagamento terá de ser feito para liquidar as dívidas da SPM para que a fusão possa ter lugar. Tal não parece ser mais do que dizer que, para “engordar” a SAD, o SCP absorverá dívidas num valor de 120 M€.

O que recebe o Clube em troca? Cerca de 73 milhões de acções da SAD, provenientes do aumento de capital da SAD consequente da fusão. Estas acções, com valor nominal de 1€ (portanto nominalmente 73M€), avaliadas à data de 31 de Janeiro, data de referência da fusão, valem aproximadamente a 33M€ (14,5M€ directamente e 18,4M€ via Sporting SGPS). Entretanto, a cotação tem-se mantido relativamente equivalente.

Qual é o resultado final da operação? O Sporting Clube de Portugal cede os direitos de superfície das suas infra-estruturas mais proveitosas – o Estádio José Alvalade e o Complexo Multidesportivo e incorpora 120M€ de dívida em troca de algo que nominalmente vale 73M€ mas que presentemente vale menos de metade disso.

Volto a referir, para quem se quiser informar, a localização do projecto de fusão. Foi esta a única fonte de todos os dados acima descritos. Relembro também que no ponto 3 do Artigo 6.º dos Estatutos do Sporting Clube de Portugal “depende ainda de autorização ou aprovação da Assembleia Geral [do Clube] a alienação ou oneração de participações em sociedades, excepto se tiverem a natureza de meras aplicações financeiras.” Parece-me não haver nada de “mero” nesta aplicação.

Sim, é verdade que desta forma o exercício da Sporting SAD fica (temporariamente) mais estabilizado, permitindo apresentar melhores resultados financeiros no curto prazo. Mas também é verdade que, mantendo as estruturas de custos e receitas, com um ritmo de 19M€ negativos por semestre este balão de oxigénio rapidamente se esgotará.

E quando se esgotar, o que restará ao Sporting Clube de Portugal para além de alienar a sua posição na SAD, pedaço a pedaço, para conseguir manter a sua actividade desportiva nas restantes modalidades? Faz sentido incorporar na Sporting SAD – dedicada exclusivamente ao futebol – o Complexo Multidesportivo? As modalidades ditas amadoras que nele funcionam, terão que passar a pagar renda à SAD para poderem usar os espaços que deveriam ser do Clube?

Foi constituída uma comissão técnica para dotar o processo de desenvolvimento do novo pavilhão do conhecimento de causa que possa fazer dele uma real mais valia desportiva, numa altura em que a aprovação do Plano de Pormenor se arrasta de sessão em sessão da Assembleia Municipal de Lisboa.  É de louvar esta iniciativa, uma vez que permitirá a consulta das modalidades que dele realmente dependerão.

No entanto fica a dúvida: quando for finalmente erigido, o pavilhão vai ser de quem? Do Clube, e será que vai ser recriada uma estrutura empresarial, para o gerir, equivalente à que se pretende agora eliminar? Da SAD, desvirtuando por completo o Clube e as suas mais-valias desportivas e patrimoniais, tal como visto acima com o Complexo Multidesportivo?

Quanto aos resultados desportivos recentes mais relevantes, o cenário é tudo menos regular. No andebol, a equipa terá perdido a escassa possibilidade de obter o título de campeão nacional com uma derrota doméstica contra o Madeira SAD. Restam ainda as taças – a de Portugal e a Challenge. No futebol, um panorama muito semelhante: aprofundou-se a diferença para o pelotão da frente descendo ao quinto lugar da classificação, jogando-se amanhã a primeira mão dos quartos-de-final da Liga Europa frente ao Metalist, às 20h05 no Estádio José Alvalade. Que, apesar de tudo, os bons resultados desportivos sejam alcançados, para que ao menos dentro de campo os nossos ideais sejam cumpridos.