Category Archives: Época 2011/2012

Onze-doze

Nos últimos quarenta e nove dias a época desportiva do futebol do Sporting acabou com uma encenação, um bom jogo e um desperdício. Friamente, foi um final adequado para uma época agridoce. Demasiados casos, demasiadas polémicas, demasiada influência da arbitragem nos resultados.

Um campeonato irregular, com alguns bons resultados mas também com mais más exibições do que excelentes. Uma boa campanha europeia e outra boa campanha na Taça de Portugal, ambas estragadas por falta de capacidade emocional de lidar com pressão e falta de ambição e pragmatismo nos momentos decisivos. Se bem que se aceitem estas falhas numa equipa tão pouco rotinada quanto esta, ficou a ideia que uma maior capacidade de motivação e galvanização da equipa poderia ter permitido a obtenção de pelo menos um título nesta época.

A secção de futsal joga amanhã o título de campeão desta época, podendo alcançar o tricampeonato após quatro jogos geralmente bem disputados mas em que tem faltado alguma capacidade de concretização. É incrível que mesmo num espaço tão pequeno e com um jogo tão rápido se consiga fazer do anti-jogo e do cinismo uma via para o sucesso. Pondo de parte a visão clubística, não seria justo que a equipa que fez mais para vencer no conjunto dos quatro jogos até agora realizados viesse a perder o título para um conjunto e estilo de jogo cínico e provocatório, ainda que melhor financiado.

Nas restantes modalidades acabou a época em andebol com uma Taça de Portugal vencida, a mudança da equipa técnica e um plantel desejavelmente mais maduro. O ténis de mesa teve uma época notável, com a vitória do campeonato nacional e da taça, para além das conquistas nos escalões de formação. No atletismo, Naide Gomes e Obikewlu, figuras centrais na missão portuguesa e sportinguista aos Jogos Olímpicos de 2012, sofreram duras lesões na disputa dos campeonatos nacionais, pelo que estarão provavelmente arredados da competição.

Enquanto procura o sucesso desportivo que é a sua matriz identitária, o universo Sporting Clube de Portugal tenta sair das areias movediças financeiras em que se encontra alavancando-se com forte investimento imediato, fazendo depender dos resultados no curto prazo e da entrada rápida de dinheiro fresco a sustentabilidade do seu modelo de gestão.

O sucesso desta estratégia dependerá profundamente da preparação da próxima época. A abordagem ao defeso e à gestão dos planteis – onde se inclui a equipa B – determinará o sucesso dos próximos anos, tanto económica como desportivamente, e portanto, institucionalmente. Assinale-se no entanto que, e planeio desenvolver mais aprofundadamente esta reflexão noutra oportunidade, o sucesso desta estratégia também dependerá do enquadramento interno político e estratégico dentro do Sporting e junto dos sportinguistas.

Recta final de leão

A época aproxima-se do seu fim. Entretanto e para a Liga a equipa de futebol obteve uma vitória contra o Nacional da Madeira fora, com uma equipa de poupança, e outra vitória contra a Académica de Coimbra em casa, com a melhor equipa disponível mas mentalmente quebrada pelo afastamento na Liga Europa.

A eliminação na Liga Europa ficou marcada por alguma imaturidade. Imaturidade completamente compreensível e justificada, dada a inexperiência do colectivo e alguma falta de capacidade emocional para gerir e disputar jogos decisivos. Na primeira mão, um jogo de contornos épicos poderia ter tido um resultado mais tranquilo. Na segunda mão, um jogo tenso e com muita pressão tanto directa, no relvado, como indirecta, na bancada, ditou o afastamento da equipa. Pouca sorte e alguma dureza nos relvados, respeito mútuo nas bancadas e em redor dos estádios, e acabou o sonho europeu deste ano, na mesma altura em que tanto o futsal e o andebol perderam as suas meias finais.

Da época futebolística de 2011/2012 restam dois grandes objectivos: obter o terceiro lugar na Liga, sendo para isso necessário anular pelo menos três pontos em relação ao Braga com vantagem no confronto directo. Vencer a Taça de Portugal, dia 20 de Maio no Estádio Nacional.

Para o primeiro objectivo falta vencer a dois dos três primeiros classificados, para além das ameaças de desistência da União de Leiria da Liga que põem em risco a acessibilidade do terceiro lugar. Para o segundo objectivo, espera-se uma casa composta (faltam vender 728 bilhetes pelo Sporting e a FPF já não tem bilhetes para vender, apesar da AFL não ter disponibilizado os seus bilhetes para venda ao público).

Tanto um objectivo como o outro estão ao alcance do tabuleiro de sombras e fumos que o futebol português é. Cá estaremos para ver como acaba a época; para já, amanhã joga-se a Norte da ponte do Freixo um proclamado jogo de consagração dos virtuais vencedores da Liga. Que seja um banho de futebol, sem casos, e que os ponha no seu lugar.

Mil águas de Abril

Desde o meu último artigo muito se tem passado no mundo do Sporting, em particular no seu futebol. Foram onze dias que podem servir de base para a reflexão que urge fazer sobre o Sporting como instituição e para o Sporting dos próximos anos. Gostava de me poder concentrar apenas nos aspectos desportivos – principalmente dada a importância do jogo de amanhã – mas há assuntos que têm de ser abordados.

Dia 9 aconteceu um grande jogo no José Alvalade contra o velho rival da cidade, que, com cabeça mais fria, poderia ter acabado com um resultado mais volumoso. Ainda assim, regista-se a superioridade leonina nos dois jogos com o rival, apesar de os dois resultados serem enganadores e enganadoramente equilibrados entre si.

Depois deste jogo, que foi o primeiro de uma sequência de cinco que fará defrontar a equipa leonina com os três primeiros classificados, Nacional da Madeira e Académica de Coimbra, surge um caso. Este novelo mediatico-policial tem vindo a crescer de escala, instabilizando a estrutura directiva do Clube cuja equipa tinha acabado de dificultar bastante as contas do título nacional a um dos primeiros classificados. Será decerto apenas uma coincidência que os dirigentes dos restantes adversários internos desta época partilhem órbitas.

O que inicialmente parecia uma denúncia anónima de corrupção transmitida via Sporting à FPF e PJ transformou-se rapidamente e graças a uma eficaz – ainda que ilegal e não-ética – ligação entre as instâncias policiais e mediáticas num tão português julgamento em praça pública de Paulo Pereira Cristóvão, com base em alegados factos alegadamente transmitidos por orgãos de alegada comunicação social alegadamente competentes.

Os factos conhecidos são muito poucos: apenas que Cristóvão terá sido pronunciado como arguido num processo de denúncia difamatória e que Rogério Alves será o seu representante neste processo. Pelo menos para já, a Polícia Judiciária não indicia corrupção, nem coacção, nem conspiração. Denúncia difamatória. O que não quer dizer que seja defensável – simplesmente aparenta que não haverá indícios que apontem para crimes de outra monta.

Numa reacção inicial (prontamente aceite por Godinho Lopes) que tem tanto de respeitável como de estatutoriamente impossível, Cristóvão suspende funções alegando os “superiores interesses do Sporting”, indicando que seguiria o processo em que é constituído como arguido sem envolver o Sporting Clube de Portugal.

Passado alguns dias, faz saber que quer regressar a funções, organizando-se para o efeito uma reunião do Conselho Directivo. Não obstante alegadas crispações, tensões internas e ameaças de demissão, Cristóvão é readmitido pela mão de Lopes que, prontamente, transmite por vídeo o seu apoio ao mesmo tempo que anuncia a abertura de um inquérito interno, aproveitando ainda para fazer passar o lema de inevitabilidade da fusão da SPM na SAD, tal como feito anteriormente por outras direcções em relação a outras operações ditas contabilísticas. Ontem, Cristóvão reassumiu funções defendendo que tem «muita obra para fazer até Agosto», sem referência aos anteriormente essenciais superiores interesses do Sporting.

Fazendo fé na generalidade das informações disseminadas na imprensa, Paulo Pereira Cristóvão representará algo que o Sporting há muito não tem – alguém que procure defender o Clube no submundo que define o futebol nacional, ainda que com métodos pouco ortodoxos, mesmo nesse contexto. Apesar de neste momento o processo se limitar ao crime de denúncia difamatória, criou-se a ideia de que Cristóvão terá simulado o crime para incriminar Cardinal, com base numa suposta rede de espionagem não só sobre as estruturas da arbitragem mas também sobre agentes desportivos de qualquer quadrante, incluindo os do Sporting.

Verificando-se a veracidade destas informações, o que significaria tal evolução? Pelo que a blogosfera leonina mostra, os sportinguistas dividem-se entre aqueles que aceitam que alguém suje as mãos e por inerência o Clube para o defender, um pouco à imagem do que alguns fazem há 30 anos ininterruptos, e os que preferem manter a sua visão limpa, fundeada em princípios de ética e de verdade no desporto, mesmo se isso representar uma secundarização mediática e eventualmente competitiva. Uma coisa é certa: a superioridade moral de nos identificarmos como diferentes está posta em causa, mesmo que seja só alegada e mediaticamente.

À margem destas considerações, o resultado final da reunião Conselho Directivo e as suas consequências mediáticas parecem indicar algo de muito significativo – Cristóvão será neste momento a personagem principal da direcção do Clube, ao demonstrar ter poder de alavancagem suficiente para poder abandonar e reivindicar o seu papel sem que ninguém se oponha. Por outro lado, o Conselho Directivo encontrar-se-á fracturado entre os que defenderam o regresso de Cristóvão, os que se lhe oposeram, e os que assinam de cruz qualquer decisão, desde que possam manter a sua representatividade institucional.

Esta fractura, apesar da imagem de união que Lopes quer fazer passar e suscitar nos demais sócios e adeptos, vai sendo minada por fora com alegados auxílios de dentro. Tal conturbação interior atesta a fragilidade da direcção, fazendo supor que não deverá sobreviver a complicações profundas do caso Cristóvão ou qualquer outro revés na sua estratégia, onde provavelmente se inclui o chumbo da fusão da SPM na Sporting SAD, a decidir durante a próxima semana. Mesmo no caso da fusão ser aprovada podem  ser convocadas eleições antecipadas, tal como Godinho Lopes já tinha indiciado; esperam-se portanto uma primavera e verão quentes.

Entretanto é anunciado um blackout pela Sporting SAD: Não deveria ser blackout do Conselho Directivo do Sporting Clube de Portugal? Se a ideia é limitar danos mediáticos deste caso, não faria mais sentido manter a actividade comunicacional associada ao futebol, com conferências de imprensa e entrevistas de jogadores, desde que responsavelmente aconselhados a não responder a perguntas de âmbito não desportivo, do que dar espaço aos orgãos de alegada comunicação social para irem alimentando a sua teia especulativa? Como serve um blackout mediático do futebol para motivar os sportinguistas para as batalhas do próximo mês, se abre espaço mediático para as agendas especulativas próprias dos ditos orgãos?

Até ao fim do mês o Sporting Clube de Portugal como um todo e várias das suas modalidades passam por momentos decisivos para esta época e para as próximas. Há que saber apoiar as equipas que envergam o leão ao peito, mas também é essencial ler e interpretar todas as movimentações e sinais e tomar uma parte activa da definição do que será o futuro do Sporting Clube de Portugal.

O Sporting Clube de Portugal vive de sucesso desportivo, e amanhã frente ao Athletic Bilbao será um excelente dia para demonstrar a importância que o apoio incondicional à equipa tem na demanda pela glória. Espera-nos um oponente forte, particularmente na posse de bola atacante, na capacidade de sofrimento e na atitude. Que a nossa abnegação,  concentração e raça, suportados por uma casa cheia de apoiantes,  sirva para os vencer!

Momentos decisivos

Num jogo de nervos e trabalho de equipa, os leões ultrapassam mais uma eliminatória na Liga Europa. Não foi particularmente bem jogado, mas ainda assim ficam algumas notas positivas da partida. A coragem de iniciar a partida com André Martins, que enquanto durou fisicamente foi uma das peças mais preponderantes da equipa do Sporting. O pragmatismo de fechar a zona defensiva quando começaram a faltar pernas e discernimento para mais. A inquestionável excelência que Rui Patrício continua a demonstrar de leão ao peito (até quando?).

Assim, o Sporting Clube de Portugal continua a fazer por cumprir o seu mais primordial desígnio: ser tão grande quanto os maiores da Europa. Futsal, Andebol, Futebol. Todas qualificadas para as meias-finais das competições europeias que disputam na presente época. De resto, alguns bons resultados a nível nacional como a obtenção da Taça de Portugal em Andebol e Ténis de Mesa e diversos títulos nacionais em Natação.

Foi anunciado há dias um protocolo com a Câmara Municipal de Odivelas para a criação de um pólo desportivo multi-disciplinar naquele concelho, por um período de 20 anos, incluindo (algumas?) das modalidades que esperam vir a beneficiar da construção do pavilhão desportivo nos terrenos do antigo Estádio José Alvalade. Tratar-se-ia de um passo importante em direcção a algo que falta há demasiado ao Sporting – um espaço mais comum, uma casa mais plural – ainda que algo longe do seu coração geográfico. No entanto, este comunicado veio a ser criticado pela Junta de Freguesia por aparente clubite. Veremos no que dá este imbróglio “político” e quais as suas consequências para a preparação das próximas épocas das modalidades do Sporting.

O anúncio deste protocolo surgiu numa entrevista dada por Godinho Lopes à RTP. Esta entrevista foi marcada profundamente pela incapacidade da jornalista responsável em abordar assuntos relevantes e de uma perspectiva profunda e não preconceituosa. É grotesco que um profissional de comunicação social escolha interromper uma descrição dos resultados obtidos pela maior potência desportiva nacional nesta época desportiva (incluindo a potencial quebra do recorde do Clube de atletas presentes nuns Jogos Olímpicos – de 18 para 24) para dizer algo tão oportunamente bacoco como “o senhor engenheiro sabe tão bem como eu que é no futebol que se centram não só as maiores atenções como os maiores investimentos”. Mas o objectivo do jornalista é investigar e informar ou é fomentar e moldar tendências de mercado? O objectivo do jornalismo desportivo é acompanhar e enaltecer o sucesso desportivo ou é, por exemplo, manter turbas satisfeitas com uma eliminatória perdida com duas derrotas?

Por outro lado, nessa entrevista perdeu-se uma bela oportunidade para informar e motivar os subscritores do empréstimo obrigacionistasócios do Clube e accionistas da SAD para as decisões que foram chamados a tomar sobre o projecto de fusão referido anteriormente, respectivamente a dia e 23, 24 e 27 do presente mês. Preocupa-me que uma decisão tão relevante para o futuro do Clube e da SAD esteja a ser tão pouco publicitada e potenciada. Saberão os Sportinguistas o que se planeia fazer, quais as suas vantagens e desvantagens? Pior – quererão os Sportinguistas saber?

Quanto ao futuro do futebol no curto prazo, espera-nos um derby no José Alvalade na próxima segunda-feira, dez dias antes da primeira mão das meias finais também no José Alvalade contra o Athletic Bilbao. Dois jogos muito importantes – um principalmente por auto-estima e afirmação nacional numa época francamente fraca, outro por todas as suas dimensões – para os quais importará ultrapassar as limitações físicas e de capacidade construtiva que se têm feito sentir sobre os jogadores e equipa.

Tudo depende da capacidade de Ricardo Sá Pinto e dos seus homens aplicarem a fundo o ethos do clube. Esforço, Dedicação e Devoção. Nada como os momentos vividos ontem de madrugada no Aeroporto da Portela e o apoio apaixonado do Estádio José Alvalade cheio de leões para os fazer sentir que tudo é possível.

Uma fusão que divide

No seguimento do artigo anterior e uma vez que já é público o projecto de fusão da SPM na SAD, julgo ser importante contrariar as tendências recentes e “despersonificar” a situação. Não se trata de quem diz defender os interesses do clube ou de quem tenta estabilizar a contabilidade da SAD.

Consultando o projecto de fusão, o mecanismo não poderia ser mais claro: para que a fusão seja feita, a SPM terá que proceder a um aumento de capital social via entradas em dinheiro no valor de 120 M€ efectuadas pelos seus accionistas  – Sporting Clube de Portugal (em 44%) e Sporting SGPS (em 56%) – o que equivale a uma pertença total ao Sporting Clube de Portugal. Este pagamento terá de ser feito para liquidar as dívidas da SPM para que a fusão possa ter lugar. Tal não parece ser mais do que dizer que, para “engordar” a SAD, o SCP absorverá dívidas num valor de 120 M€.

O que recebe o Clube em troca? Cerca de 73 milhões de acções da SAD, provenientes do aumento de capital da SAD consequente da fusão. Estas acções, com valor nominal de 1€ (portanto nominalmente 73M€), avaliadas à data de 31 de Janeiro, data de referência da fusão, valem aproximadamente a 33M€ (14,5M€ directamente e 18,4M€ via Sporting SGPS). Entretanto, a cotação tem-se mantido relativamente equivalente.

Qual é o resultado final da operação? O Sporting Clube de Portugal cede os direitos de superfície das suas infra-estruturas mais proveitosas – o Estádio José Alvalade e o Complexo Multidesportivo e incorpora 120M€ de dívida em troca de algo que nominalmente vale 73M€ mas que presentemente vale menos de metade disso.

Volto a referir, para quem se quiser informar, a localização do projecto de fusão. Foi esta a única fonte de todos os dados acima descritos. Relembro também que no ponto 3 do Artigo 6.º dos Estatutos do Sporting Clube de Portugal “depende ainda de autorização ou aprovação da Assembleia Geral [do Clube] a alienação ou oneração de participações em sociedades, excepto se tiverem a natureza de meras aplicações financeiras.” Parece-me não haver nada de “mero” nesta aplicação.

Sim, é verdade que desta forma o exercício da Sporting SAD fica (temporariamente) mais estabilizado, permitindo apresentar melhores resultados financeiros no curto prazo. Mas também é verdade que, mantendo as estruturas de custos e receitas, com um ritmo de 19M€ negativos por semestre este balão de oxigénio rapidamente se esgotará.

E quando se esgotar, o que restará ao Sporting Clube de Portugal para além de alienar a sua posição na SAD, pedaço a pedaço, para conseguir manter a sua actividade desportiva nas restantes modalidades? Faz sentido incorporar na Sporting SAD – dedicada exclusivamente ao futebol – o Complexo Multidesportivo? As modalidades ditas amadoras que nele funcionam, terão que passar a pagar renda à SAD para poderem usar os espaços que deveriam ser do Clube?

Foi constituída uma comissão técnica para dotar o processo de desenvolvimento do novo pavilhão do conhecimento de causa que possa fazer dele uma real mais valia desportiva, numa altura em que a aprovação do Plano de Pormenor se arrasta de sessão em sessão da Assembleia Municipal de Lisboa.  É de louvar esta iniciativa, uma vez que permitirá a consulta das modalidades que dele realmente dependerão.

No entanto fica a dúvida: quando for finalmente erigido, o pavilhão vai ser de quem? Do Clube, e será que vai ser recriada uma estrutura empresarial, para o gerir, equivalente à que se pretende agora eliminar? Da SAD, desvirtuando por completo o Clube e as suas mais-valias desportivas e patrimoniais, tal como visto acima com o Complexo Multidesportivo?

Quanto aos resultados desportivos recentes mais relevantes, o cenário é tudo menos regular. No andebol, a equipa terá perdido a escassa possibilidade de obter o título de campeão nacional com uma derrota doméstica contra o Madeira SAD. Restam ainda as taças – a de Portugal e a Challenge. No futebol, um panorama muito semelhante: aprofundou-se a diferença para o pelotão da frente descendo ao quinto lugar da classificação, jogando-se amanhã a primeira mão dos quartos-de-final da Liga Europa frente ao Metalist, às 20h05 no Estádio José Alvalade. Que, apesar de tudo, os bons resultados desportivos sejam alcançados, para que ao menos dentro de campo os nossos ideais sejam cumpridos.

Leituras de um projecto

A passagem da Sporting Património e Marketing para a SAD é, em si própria, uma alienação. Simplificando, representa a venda da empresa gestora das infra-estruturas e restante património do Sporting Clube de Portugal, participada a 100% pelo SCP, por algo que a Sporting SAD ou os seus accionistas possam apresentar como compensação para o Sporting Clube de Portugal. Esta venda tem ainda assim algumas vantagens, prontamente descritas no comunicado, que vou abordar isoladamente.

A fusão permitirá resolver a situação dos capitais próprios da Sporting SAD, que hoje se encontram negativos, e que desta forma passarão a positivos.

Esta vantagem é mais um anúncio do que uma constatação, porque presume informação não comunicada – o valor atribuído à putativa fusão da SPM com a SAD. De acordo com o Relatório & Contas do primeiro semestre desta época, os capitais próprios consolidados da SAD foram de -37M€. Resta conhecer e validar a real avaliação do valor da SPM, e sob que forma será o SCP compensado.

Por outro lado, a fusão permitirá concentrar todas as actividades económicas relacionadas com o futebol numa única entidade, a Sporting SAD, eliminando custos duplicados decorrentes da existência das duas sociedades, permitindo uma optimização dos recursos e a constituição de uma estrutura mais coesa, constituída apenas por duas entidades: o Clube e a Sporting SAD.

Esta vantagem é em si própria um bom exemplo de gestão: se foram identificadas actividades económicas relacionadas faz todo o sentido que se eliminem custos desnecessários na estrutura organizacional do Universo Sporting. No entanto, esta avaliação dependerá do que poderá custar ao SCP esta operação.

A operação de fusão permitirá ainda ao Sporting Clube de Portugal manter a maioria do capital social da Sporting SAD, mesmo depois da conversão das VMOC em capital da SAD.

Esta vantagem aponta para aquela que será a melhor contribuição da operação: assegurar a maioria do SCP na SAD, independentemente da conversão das VMOC em capital da SAD. Tal só pode acontecer com um aumento artificial do capital da SAD, uma vez que o capital a converter pelas VMOC (55M€) representa mais do que o capital actualmente compõe a SAD (39M€). Fica também a nota de que esta vantagem também pressupõe informação não comunicada – em particular, o valor da compensação a atribuir ao SCP pela SPM, qual o aumento de capital a realizar na SAD e qual a previsível posição do SCP na SAD após a operação.

Finalmente, a concretização da fusão terá impacto positivo na Sporting SAD ao nível do cumprimento das regras de Fair-Play financeiro da UEFA, facilitando a obtenção da rentabilidade mínima exigida pela UEFA a partir do Exercício de 2013/14.

Esta vantagem baseia-se numa presunção de informação não comunicada nem, infelizmente, previsível – o comportamento da Sporting SAD no que se refere à sua rentabilidade. E esta rentabilidade depende de muito mais do que da culinária contabilística que possa ser feita – depende da obtenção de resultados quer desportivos, quer económicos, suficientemente fortes para compensar os custos incorridos tanto ao longo da história como num passado mais recente.

 

Ultrapassando outras questões que merecerem um artigo por si próprias, como a falta de respeito demonstrado pelos dirigentes do Sporting para com os seus associados na temporização e baixíssima mediatização do anúncio, assim como na marginalíssima referência à necessidade de a organização de Assembleias Gerais para implementar este projecto, deixo mais algumas reflexões.

O futebol leonino é do Clube. Qualquer medida tomada que contribua para o fortalecimento da posição do Sporting Clube de Portugal nas suas empresas dependentes será, à partida, uma boa medida. Ao existir, o universo empresarial Sporting deve ser o mais eficiente e sustentável possível, de forma a poder contribuir para engrandecer o Clube e para defender apenas os seus, do Clube, interesses.

Não há nada que garanta que o tipo de aposta forte e imediata que foi feita nesta época tenha resultados imediatos ou duradouros. Mais do que a estruturação da estrutura empresarial do Universo Sporting, preocupa-me a política de gestão e investimento a que a SAD e o Clube estão a ser sujeitos. Tudo parece uma preparação de negócio tendo como base a SAD, o futebol do Sporting, muito provavelmente através de uma posição maioritária. Com a aplicação deste projecto, a SAD deglutirá o pouco que resta de valioso no Sporting Clube de Portugal, deixando-o sem garantias de que o caminho esteja a ser inflectido para uma lógica de exploração que o defenda e sem mais activos que o possam proteger no futuro – para além da posição na SAD.

E enquanto as mentes mais levianas se distraem…

é aprovado o projecto de fusão entre a Sporting SAD e a Sporting Património & Marketing. Esta empresa era a responsável e titular do Estádio José Alvalade, parte fulcral no empreendimento Alvalade XXI, e maior parte do restante património ainda pertencente ao Universo Sporting. Com esta aparentemente inócua manobra de alta finança, a Sporting SAD torna-se assim a única detentora de todos activos e infra-estruturas do futebol do Sporting Clube de Portugal.

O grande objectivo desta manobra terá sido a manutenção da “maioria do capital social [do Sporting Clube de Portugal] na Sporting SAD, mesmo depois da conversão das VMOC em capital da SAD”. No entanto, tem também o efeito de dispor num bonito pacote todo o futebol leonino – plantel, infra-estruturas, receitas e passivo. Pronto para ser arrebanhado pela melhor oferta. E o clube – e os seus sócios – a ver os seus activos a serem trespassados.

Entre o céu de Matias e o inferno de Paixão

Na última quinta-feira o Sporting conseguiu ultrapassar o Manchester City no seu próprio estádio, depois de sessenta minutos de grande entrega e qualidade seguidos de quarenta de demasiado sofrimento e a suficiente sorte. Enquanto durou, Matías conseguiu o que muito poucos terão conseguido esta época: inspirar a sua equipa para vencer no City of Manchester Stadium. Quando rebentou, a equipa ressentiu-se e as alterações feitas por Sá Pinto – embora ajustadas e bem temporizadas – não foram suficientes para ancorar um resultado que poderia ter sido histórico.

Entretanto, acabou há momentos mais um jogo para consumo interno marcado pelo de sempre: algum desacerto e falta de ambição na maior parte do encontro do lado dos jogadores do Sporting, um árbitro com tendências mais que confirmadas de protagonista principal, e um adversário motivado e muito pressionante a jogar no erro. Mais uma derrota averbada nesta época, perigando o quarto lugar – que tinha sido revisto em baixa como objectivo mínimo para o campeonato nacional.

Notaram-se alguns problemas de preparação física, articulação entre sectores, e finalização e construção de jogadas perigosas. De fora, parece que a capacidade de motivar os jogadores (quase os mesmos que eliminaram uma das mais fortes equipas europeias na respectiva casa) para disputar e vencer um jogo de campeonato contra o agora 12º classificado não consegue ultrapassar as suas próprias limitações físicas e o enviesamento tradicional dos relvados deste país.

Já sabemos que, para vencer, temos de ser muito mais capazes que os outros. Falta conseguir transmitir essa informação – eliminar o Manchester City até parece fácil quando comparado com a podridão e incompetência que grasam no futebol português.

Vitória através da superação

Não há nada mais Sportinguista do que ultrapassar limitações e derrubar barreiras para vencer. Sofrer para conseguir.

Ricky van Wolfswinkel, Matías Fernandez, Marat Izmailov, Jeffrén Suárez. Ricardo Sá Pinto. Todos com algo a provar a si próprios e aos restantes – ontem, todos bem sucedidos. A equipa amadurece e aprimora processos, sem que se note a pressão que tem para não falhar. O treinador lançado às feras tem vindo a implementar e a evoluir as suas ideias e a encontrar o seu espaço no leão que traz ao peito. Um povo que, apesar de lhe ser vendida a ideia de que já nada tem a alcançar, se une para apoiar os seus representantes.

Um leão que lambe as suas feridas e avança sobre a sua presa. Continua na próxima quinta-feira.

Semana meio cheia

Há momentos e jogos que deviam ser iconificados e usados para demonstrar a real profundidade de ser Sporting. Quinta-feira aconteceu um desses momentos, desde o apito inicial até ao envio de um email de agradecimento por parte dos capitães pelo apoio demonstrado. É com estes exemplos que o Sporting se deve regenerar, a si próprio e à relação que escolhe manter com os Sportinguistas. Porque, tal como diz Leão de Alvalade, o Sporting fez-se grande pelos que acreditaram sempre.

Não com outro tipo de casos, como por exemplo a ginástica de bilhética que foi sendo feita ao longo da semana – o acompanhante de sócio ora pagava o preço de sócio, ora tinha o bilhete de borla. Mas, como diz o título, há que ver e valorizar os aspectos positivos para que os negativos sejam tendencialmente eliminados.

No jogo todos se superaram – até Ricky, que apesar de não ter marcado foi essencial na primeira linha de pressão sob o portador da bola – mas para mim aquele que brilhou como exemplo mais forte da reconversão foi Daniel Carriço. Raça, entrega, dedicação, num exemplo de superação tão Sportinguista quanto merecida. Seguido de perto por Izmailov, cuja evolução demonstra uma capacidade técnica e de sofrimento ímpares. Matias merecia ter feito aquele golo de longe e Carrillo também, pela demonstração técnica que deu a Nasri já nos momentos finais.

Que a estrutura directiva e equipa técnica tenham a capacidade de fazer perdurar este espírito e esta vontade de triunfar tanto no jogo de amanhã, frente ao Vitória de Guimarães, como na quinta-feira, em Manchester para o fecho dos oitavos-de-final, como para todas as restantes finais que ainda nos esperam esta época.

No Futsal, o Sporting foi eliminado da Taça de Portugal em mais uma demonstração do que o desporto nacional escolhe como base de sobrevivência: subserviência à pressão e aquisição arrogante de desempenho desportivo a qualquer preço contra a abnegação, a entrega e o valor adquirido pelo esforço. O campeonato continua hoje, às 18h30 no pavilhão Paz e Amizade, contra o Loures.

Começa hoje a fase final do campeonato Andebol 1, com o Sporting a partir a 4 pontos da liderança. Sem espaço para errar para o objectivo do título, a equipa precisa de todo o apoio possível no jogo de hoje, às 16h00 contra o Águas Santas no pavilhão do Casal Vistoso, e em todos os jogos que ainda faltam.

Ao longo da semana foram várias as notícias lançadas na temática do património, tanto futebolístico como para as restantes modalidades. As notas mais importantes são: a reconversão do relvado irá ser feita gradualmente, com a introdução de uma variedade de relva mais adequada para o clima local; o fecho do fosso será feito inicialmente nos topos, com espaços publicitários, e depois sob as centrais com um plano de bancada que dependerá da adesão dos sócios – e, digo eu, da visibilidade que retirará às filas que lhe serão anteriores. Nas modalidades, prepara-se o regresso do basquetebol e do râguebi; antecipa-se a re-estruturação do projecto do pavilhão sujeito ao Plano de Pormenor por aprovar na Assembleia Municial para uma abordagem mais integradora de várias modalidades, tendo sido contactados responsáveis de várias modalidades para colaborarem nesse processo. Esta questão do pavilhão parece-me bastante sensível; resta saber se não se tratará de mais um caso de desistir do passáro que quase canta na mão, para perseguir os outros dois que seguem em voo…