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Clube de Portugal

O que devia significar para o Sporting Clube de Portugal ter tantos atletas e antigos atletas seleccionados para a Selecção Nacional?

Não existe outro clube, nacional ou internacional, que tenha tido uma preponderância tão forte nas carreiras dos seleccionados. Nenhum. Por mais títulos que tenham acumulado ou por melhor imprensa que outros clubes possam ter, nenhum outro representou tanto para esta geração de jogadores portugueses. Tal facto é e terá que ser sempre um orgulho.

Sendo um elogio à capacidade de prospecção e formação do Sporting, este facto é também uma chamada de atenção para o tipo de gestão desportiva levado a cabo genericamente ao longo da última década. Se conseguimos reunir os melhores talentos nacionais nas etapas formativas e em início de carreira, porque é tão difícil mantê-los e conseguir resultados desportivos e económicos com eles? Será mais caro investir em jovens de formação ou em jovens bem agenciados? Quem sai a ganhar ou a perder com tal mudança de paradigma de investimento e gestão?

À partida, o ponto chave para a abordagem à gestão de plantel parece ser a mobilização dos adeptos. O produto da casa, que é visto a crescer e a errar, tem uma margem de erro consequentemente menor que uma qualquer transferência inflacionada – e o contrário para a capacidade de mobilização e criação de expectativas. Um bom indicador para o ponto de equilíbrio entre formação e importação de talento para a época de 2012/13 será o equilíbrio entre as apostas feitas em Diego Rubio e Betinho. Apesar de terem tido até agora níveis de diferentes exigência e competitividade, apenas distam em dois meses de idade – e as escolhas que venham a ser tomadas na gestão das respectivas carreiras demonstrarão o tipo de estratégia escolhido.

Não deveria a instituição que mais tem feito pelo futebol português contribuir para a efectiva valorização do talento nacional? Como podem os orgãos sociais do Sporting ensinar os sportinguistas a respeitar mais os seus atletas de formação, e como pode o sportinguista obrigar os orgãos sociais do Sporting a não entrar em esquemas especulativos e redes de remuneração abusiva de agentes e fundos de investimento?

Como português, agrada-me que tenha existido – e acima de tudo que continue a existir – um clube que seja particularmente bom na identificação e desenvolvimento de jovens talentos futebolísticos, do qual a selecção do meu país possa beneficiar. Como sportinguista, lamento que não tenha sido possível congregar os pontos mais fortes de mais uma geração do futebol português para o sucesso do clube que mais fez para os potenciar. E temo que esta capacidade esteja a diminuir, quando poderia ser a via mais segura para a estabilização do futebol e do clube.

Onze-doze

Nos últimos quarenta e nove dias a época desportiva do futebol do Sporting acabou com uma encenação, um bom jogo e um desperdício. Friamente, foi um final adequado para uma época agridoce. Demasiados casos, demasiadas polémicas, demasiada influência da arbitragem nos resultados.

Um campeonato irregular, com alguns bons resultados mas também com mais más exibições do que excelentes. Uma boa campanha europeia e outra boa campanha na Taça de Portugal, ambas estragadas por falta de capacidade emocional de lidar com pressão e falta de ambição e pragmatismo nos momentos decisivos. Se bem que se aceitem estas falhas numa equipa tão pouco rotinada quanto esta, ficou a ideia que uma maior capacidade de motivação e galvanização da equipa poderia ter permitido a obtenção de pelo menos um título nesta época.

A secção de futsal joga amanhã o título de campeão desta época, podendo alcançar o tricampeonato após quatro jogos geralmente bem disputados mas em que tem faltado alguma capacidade de concretização. É incrível que mesmo num espaço tão pequeno e com um jogo tão rápido se consiga fazer do anti-jogo e do cinismo uma via para o sucesso. Pondo de parte a visão clubística, não seria justo que a equipa que fez mais para vencer no conjunto dos quatro jogos até agora realizados viesse a perder o título para um conjunto e estilo de jogo cínico e provocatório, ainda que melhor financiado.

Nas restantes modalidades acabou a época em andebol com uma Taça de Portugal vencida, a mudança da equipa técnica e um plantel desejavelmente mais maduro. O ténis de mesa teve uma época notável, com a vitória do campeonato nacional e da taça, para além das conquistas nos escalões de formação. No atletismo, Naide Gomes e Obikewlu, figuras centrais na missão portuguesa e sportinguista aos Jogos Olímpicos de 2012, sofreram duras lesões na disputa dos campeonatos nacionais, pelo que estarão provavelmente arredados da competição.

Enquanto procura o sucesso desportivo que é a sua matriz identitária, o universo Sporting Clube de Portugal tenta sair das areias movediças financeiras em que se encontra alavancando-se com forte investimento imediato, fazendo depender dos resultados no curto prazo e da entrada rápida de dinheiro fresco a sustentabilidade do seu modelo de gestão.

O sucesso desta estratégia dependerá profundamente da preparação da próxima época. A abordagem ao defeso e à gestão dos planteis – onde se inclui a equipa B – determinará o sucesso dos próximos anos, tanto económica como desportivamente, e portanto, institucionalmente. Assinale-se no entanto que, e planeio desenvolver mais aprofundadamente esta reflexão noutra oportunidade, o sucesso desta estratégia também dependerá do enquadramento interno político e estratégico dentro do Sporting e junto dos sportinguistas.