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Mil águas de Abril

Desde o meu último artigo muito se tem passado no mundo do Sporting, em particular no seu futebol. Foram onze dias que podem servir de base para a reflexão que urge fazer sobre o Sporting como instituição e para o Sporting dos próximos anos. Gostava de me poder concentrar apenas nos aspectos desportivos – principalmente dada a importância do jogo de amanhã – mas há assuntos que têm de ser abordados.

Dia 9 aconteceu um grande jogo no José Alvalade contra o velho rival da cidade, que, com cabeça mais fria, poderia ter acabado com um resultado mais volumoso. Ainda assim, regista-se a superioridade leonina nos dois jogos com o rival, apesar de os dois resultados serem enganadores e enganadoramente equilibrados entre si.

Depois deste jogo, que foi o primeiro de uma sequência de cinco que fará defrontar a equipa leonina com os três primeiros classificados, Nacional da Madeira e Académica de Coimbra, surge um caso. Este novelo mediatico-policial tem vindo a crescer de escala, instabilizando a estrutura directiva do Clube cuja equipa tinha acabado de dificultar bastante as contas do título nacional a um dos primeiros classificados. Será decerto apenas uma coincidência que os dirigentes dos restantes adversários internos desta época partilhem órbitas.

O que inicialmente parecia uma denúncia anónima de corrupção transmitida via Sporting à FPF e PJ transformou-se rapidamente e graças a uma eficaz – ainda que ilegal e não-ética – ligação entre as instâncias policiais e mediáticas num tão português julgamento em praça pública de Paulo Pereira Cristóvão, com base em alegados factos alegadamente transmitidos por orgãos de alegada comunicação social alegadamente competentes.

Os factos conhecidos são muito poucos: apenas que Cristóvão terá sido pronunciado como arguido num processo de denúncia difamatória e que Rogério Alves será o seu representante neste processo. Pelo menos para já, a Polícia Judiciária não indicia corrupção, nem coacção, nem conspiração. Denúncia difamatória. O que não quer dizer que seja defensável – simplesmente aparenta que não haverá indícios que apontem para crimes de outra monta.

Numa reacção inicial (prontamente aceite por Godinho Lopes) que tem tanto de respeitável como de estatutoriamente impossível, Cristóvão suspende funções alegando os “superiores interesses do Sporting”, indicando que seguiria o processo em que é constituído como arguido sem envolver o Sporting Clube de Portugal.

Passado alguns dias, faz saber que quer regressar a funções, organizando-se para o efeito uma reunião do Conselho Directivo. Não obstante alegadas crispações, tensões internas e ameaças de demissão, Cristóvão é readmitido pela mão de Lopes que, prontamente, transmite por vídeo o seu apoio ao mesmo tempo que anuncia a abertura de um inquérito interno, aproveitando ainda para fazer passar o lema de inevitabilidade da fusão da SPM na SAD, tal como feito anteriormente por outras direcções em relação a outras operações ditas contabilísticas. Ontem, Cristóvão reassumiu funções defendendo que tem «muita obra para fazer até Agosto», sem referência aos anteriormente essenciais superiores interesses do Sporting.

Fazendo fé na generalidade das informações disseminadas na imprensa, Paulo Pereira Cristóvão representará algo que o Sporting há muito não tem – alguém que procure defender o Clube no submundo que define o futebol nacional, ainda que com métodos pouco ortodoxos, mesmo nesse contexto. Apesar de neste momento o processo se limitar ao crime de denúncia difamatória, criou-se a ideia de que Cristóvão terá simulado o crime para incriminar Cardinal, com base numa suposta rede de espionagem não só sobre as estruturas da arbitragem mas também sobre agentes desportivos de qualquer quadrante, incluindo os do Sporting.

Verificando-se a veracidade destas informações, o que significaria tal evolução? Pelo que a blogosfera leonina mostra, os sportinguistas dividem-se entre aqueles que aceitam que alguém suje as mãos e por inerência o Clube para o defender, um pouco à imagem do que alguns fazem há 30 anos ininterruptos, e os que preferem manter a sua visão limpa, fundeada em princípios de ética e de verdade no desporto, mesmo se isso representar uma secundarização mediática e eventualmente competitiva. Uma coisa é certa: a superioridade moral de nos identificarmos como diferentes está posta em causa, mesmo que seja só alegada e mediaticamente.

À margem destas considerações, o resultado final da reunião Conselho Directivo e as suas consequências mediáticas parecem indicar algo de muito significativo – Cristóvão será neste momento a personagem principal da direcção do Clube, ao demonstrar ter poder de alavancagem suficiente para poder abandonar e reivindicar o seu papel sem que ninguém se oponha. Por outro lado, o Conselho Directivo encontrar-se-á fracturado entre os que defenderam o regresso de Cristóvão, os que se lhe oposeram, e os que assinam de cruz qualquer decisão, desde que possam manter a sua representatividade institucional.

Esta fractura, apesar da imagem de união que Lopes quer fazer passar e suscitar nos demais sócios e adeptos, vai sendo minada por fora com alegados auxílios de dentro. Tal conturbação interior atesta a fragilidade da direcção, fazendo supor que não deverá sobreviver a complicações profundas do caso Cristóvão ou qualquer outro revés na sua estratégia, onde provavelmente se inclui o chumbo da fusão da SPM na Sporting SAD, a decidir durante a próxima semana. Mesmo no caso da fusão ser aprovada podem  ser convocadas eleições antecipadas, tal como Godinho Lopes já tinha indiciado; esperam-se portanto uma primavera e verão quentes.

Entretanto é anunciado um blackout pela Sporting SAD: Não deveria ser blackout do Conselho Directivo do Sporting Clube de Portugal? Se a ideia é limitar danos mediáticos deste caso, não faria mais sentido manter a actividade comunicacional associada ao futebol, com conferências de imprensa e entrevistas de jogadores, desde que responsavelmente aconselhados a não responder a perguntas de âmbito não desportivo, do que dar espaço aos orgãos de alegada comunicação social para irem alimentando a sua teia especulativa? Como serve um blackout mediático do futebol para motivar os sportinguistas para as batalhas do próximo mês, se abre espaço mediático para as agendas especulativas próprias dos ditos orgãos?

Até ao fim do mês o Sporting Clube de Portugal como um todo e várias das suas modalidades passam por momentos decisivos para esta época e para as próximas. Há que saber apoiar as equipas que envergam o leão ao peito, mas também é essencial ler e interpretar todas as movimentações e sinais e tomar uma parte activa da definição do que será o futuro do Sporting Clube de Portugal.

O Sporting Clube de Portugal vive de sucesso desportivo, e amanhã frente ao Athletic Bilbao será um excelente dia para demonstrar a importância que o apoio incondicional à equipa tem na demanda pela glória. Espera-nos um oponente forte, particularmente na posse de bola atacante, na capacidade de sofrimento e na atitude. Que a nossa abnegação,  concentração e raça, suportados por uma casa cheia de apoiantes,  sirva para os vencer!

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Momentos decisivos

Num jogo de nervos e trabalho de equipa, os leões ultrapassam mais uma eliminatória na Liga Europa. Não foi particularmente bem jogado, mas ainda assim ficam algumas notas positivas da partida. A coragem de iniciar a partida com André Martins, que enquanto durou fisicamente foi uma das peças mais preponderantes da equipa do Sporting. O pragmatismo de fechar a zona defensiva quando começaram a faltar pernas e discernimento para mais. A inquestionável excelência que Rui Patrício continua a demonstrar de leão ao peito (até quando?).

Assim, o Sporting Clube de Portugal continua a fazer por cumprir o seu mais primordial desígnio: ser tão grande quanto os maiores da Europa. Futsal, Andebol, Futebol. Todas qualificadas para as meias-finais das competições europeias que disputam na presente época. De resto, alguns bons resultados a nível nacional como a obtenção da Taça de Portugal em Andebol e Ténis de Mesa e diversos títulos nacionais em Natação.

Foi anunciado há dias um protocolo com a Câmara Municipal de Odivelas para a criação de um pólo desportivo multi-disciplinar naquele concelho, por um período de 20 anos, incluindo (algumas?) das modalidades que esperam vir a beneficiar da construção do pavilhão desportivo nos terrenos do antigo Estádio José Alvalade. Tratar-se-ia de um passo importante em direcção a algo que falta há demasiado ao Sporting – um espaço mais comum, uma casa mais plural – ainda que algo longe do seu coração geográfico. No entanto, este comunicado veio a ser criticado pela Junta de Freguesia por aparente clubite. Veremos no que dá este imbróglio “político” e quais as suas consequências para a preparação das próximas épocas das modalidades do Sporting.

O anúncio deste protocolo surgiu numa entrevista dada por Godinho Lopes à RTP. Esta entrevista foi marcada profundamente pela incapacidade da jornalista responsável em abordar assuntos relevantes e de uma perspectiva profunda e não preconceituosa. É grotesco que um profissional de comunicação social escolha interromper uma descrição dos resultados obtidos pela maior potência desportiva nacional nesta época desportiva (incluindo a potencial quebra do recorde do Clube de atletas presentes nuns Jogos Olímpicos – de 18 para 24) para dizer algo tão oportunamente bacoco como “o senhor engenheiro sabe tão bem como eu que é no futebol que se centram não só as maiores atenções como os maiores investimentos”. Mas o objectivo do jornalista é investigar e informar ou é fomentar e moldar tendências de mercado? O objectivo do jornalismo desportivo é acompanhar e enaltecer o sucesso desportivo ou é, por exemplo, manter turbas satisfeitas com uma eliminatória perdida com duas derrotas?

Por outro lado, nessa entrevista perdeu-se uma bela oportunidade para informar e motivar os subscritores do empréstimo obrigacionistasócios do Clube e accionistas da SAD para as decisões que foram chamados a tomar sobre o projecto de fusão referido anteriormente, respectivamente a dia e 23, 24 e 27 do presente mês. Preocupa-me que uma decisão tão relevante para o futuro do Clube e da SAD esteja a ser tão pouco publicitada e potenciada. Saberão os Sportinguistas o que se planeia fazer, quais as suas vantagens e desvantagens? Pior – quererão os Sportinguistas saber?

Quanto ao futuro do futebol no curto prazo, espera-nos um derby no José Alvalade na próxima segunda-feira, dez dias antes da primeira mão das meias finais também no José Alvalade contra o Athletic Bilbao. Dois jogos muito importantes – um principalmente por auto-estima e afirmação nacional numa época francamente fraca, outro por todas as suas dimensões – para os quais importará ultrapassar as limitações físicas e de capacidade construtiva que se têm feito sentir sobre os jogadores e equipa.

Tudo depende da capacidade de Ricardo Sá Pinto e dos seus homens aplicarem a fundo o ethos do clube. Esforço, Dedicação e Devoção. Nada como os momentos vividos ontem de madrugada no Aeroporto da Portela e o apoio apaixonado do Estádio José Alvalade cheio de leões para os fazer sentir que tudo é possível.