Monthly Archives: Fevereiro 2012

Mais um passo para o futuro

O Sporting do consulado Sá Pinto continua a obter resultados positivos, com exibições em crescendo suportadas numa grande capacidade de sacrifício e entrega, à imagem do jogador que o treinador foi. A espaços, temos tido direito a futebol de qualidade com evolução apoiada no terreno. No momento defensivo, só ocasionalmente se têm sentido as limitações impostas quer pela disponibilidade física e clínica dos jogadores, quer pelas características individuais dos jogadores usados. No ataque, ainda só temos conseguido obter golos através alguns momentos de mais esclarecimento individual.

Mas Sá Pinto sabe – e os apoiantes Sportinguistas também têm que saber – que com mais tempo de treino outras dinâmicas e competências serão potenciadas. Foram quatro jogos em doze dias, com um saldo claramente positivo – o único resultado menos bom fez parte de uma eliminatória vencida frente ao Legia. Próximos embates: Vitórias de Setúbal (dia 3) e Guimarães (dia 11 de Março), entremeado pelos jogos com o Manchester City – em casa dia 8 e fora dia 15.

Na figura que ilustra o artigo, dois dos jogadores que para mim tiveram nota mais alta, assim como Elias, omnipresente, e Boeck, imperial. Carriço pela capacidade de entrega e pressão, Izmailov pela imprevisibilidade e obra-prima que marca o resultado final.

Uma palavra ainda para os ditos grupos organizados de apoio do Sporting Clube de Portugal, em particular a Juventude Leonina. Depreendo do conceito “grupo organizado de apoio” que se tratem de um conjunto de pessoas com estrutura própria e com um objectivo bem definido: apoiar. Compreendo que haja antipatias que facilitem a mobilização dos restantes apoiantes se capitalizadas no momento certo.

No entanto, o momento certo NÃO É um jogo de início de ciclo, técnica e fisicamente exigente, em que nada se joga que esteja relacionado com quaisquer alvos de antipatias. Esse triste momento de “apoio” foi respondido com boas intenções por muitos dos restantes espectadores, com vaias e assobios direccionados às claques. O problema é que esta resposta contribuiu, tal como o cansaço físico, para despoletou fragilidades anímicas na equipa que podiam ter resultado no empate – seria um literal autogolo da Juventude Leonina. Talvez fosse bom que esse grupo organizado de apoio, e os restantes que participaram, repensassem a sua atitude e o papel que desenrolam no universo Sporting.

Salada russa

No futebol jogado, é ainda cedo para encontrar grandes mudanças a serem levadas a cabo por Ricardo Sá Pinto e a sua equipa técnica. Ainda assim já se notam alguns ajustes principalmente na movimentação e organização com posse e na prioritização das acções com e sem bola. Que seja o despontar de uma equipa que efectivamente jogue com qualidade Sporting, olhos nos olhos em qualquer relvado.

É também de assinalar o efeito que a chicotada psicológica teve sobre os jogadores de formação – principalmente Carriço, André Santos e Pereirinha – que aproveitaram o regresso de um dos símbolos do futebol leonino das últimas décadas para ganhar espaço no plantel e na equipa. Ainda que tenha resultado de alguns condicionamentos clínicos e físicos, não será coincidência que estes três jogadores tenham sido os suplentes utilizados em ambos os jogos após a entrada em funções da nova equipa técnica.

Quanto à constituição da equipa técnica, parece ter sido a possível dadas as restrições de quem paga mais duas equipas técnicas. Às pessoas de confiança de Sá Pinto, juntou-se o observador da anterior equipa técnica e um académico do treino e preparação táctica com algumas ligações ao meio comunicacional do outro lado da estrada, Jorge Castelo. Esperemos que esta equipa técnica seja capaz de revitalizar o plantel e a equipa do Sporting e de nos levar aos sucessos que desejamos, independentemente de preferências clubísticas.

 

Amanhã joga-se no José Alvalade com o Légia a passagem aos oitavos-de-final da Liga Europa, a jogar contra o Manchester City. Espera-se um jogo tenso, com uma forte presença de apoiantes polacos. Que o estatuto de risco elevado do jogo não tenha razão de ser e acima de tudo que o auditório sportinguista saiba apoiar a sua equipa acima de todas as incidências do jogo. Compreende-se exigência mas não se compreende desestabilização de um grupo com tanto potencial.

 

Ainda em relação à transição de equipas técnicas, não posso deixar de referir os novos desenvolvimentos do caso contactos-de-Domingo-Paciência-com-Diocese-das-Antas:

  • A Agência Lusa defendeu a sua posição apesar do erro técnico grave do seu jornalista e ameaça divulgar o nome da fonte.
  • Luís Duque agradece a iniciativa e reforça que seria bom para todos os envolvidos que o nome fosse divulgado.
  • Nos programas de paineleiros todos sabem ou aparentam saber o que se passa (excepto aqueles em representação do Sporting), sem que nada se tenha precipitado.
  • Surgem algumas indicações que terá sido Luís Lemos, colaborador Cunha Vaz & Associados e curiosamente também ligado ao meio comunicacional do outro lado da estrada, provável spin-doctor de mão de Godinho Lopes, a criar o imbróglio.

A minha leitura destes desenvolvimentos é que a pseudo-notícia terá sido criada e disseminada com o intuito de proteger Godinho Lopes de uma decisão de gestão na qual não estaria totalmente confiante. O seu consultor consegue ainda, com esta manobra, criar um foco de tensão entre dois clubes dos quais, por coincidência, nenhum é o seu. Aquele que julgo ser o autor técnico e moral da decisão, Luís Duque, vem defender-se de naturais suspeitas, tentando provocar a identificação do responsável da manobra e retirar-lhe espaço de manobra e influência junto de Godinho Lopes. Ter-se-á tratado portanto de mais uma luta por influência sobre a cadeira da presidência do Sporting.

 

Quanto à hipótese do investimento externo na Sporting SAD, presumivelmente tendo em vista a aquisição de posição maioritária já adiantada por Godinho Lopes em entrevista ao Expresso, refiro este artigo de Pedro Faleiro da Silva e deixo para já as seguintes questões:

  • De que forma pode a entrada de um investidor contribuir para resolver os problemas de tesouraria da Sporting SAD?
  • Será aceitável vender a identidade do Sporting através do seu futebol, em troca de um passivo menor?
  • O que garante ao Sporting Clube de Portugal que, no caso de existir de facto um mecenas benemérito e iluminado que queira pagar a conta da gestão do Sporting das últimas décadas, não se crie um problema semelhante ou até mais profundo com a sua entrada na SAD?
  • Quais as consequências para o ecléctico clube Sporting Clube de Portugal de se ver amputado identitariamente da sua modalidade mais representativa e que mais receitas gera?

Mais um sacrifício ritual

Há dias tinha dito aqui  que aquilo que pode ser denominado como “projecto Godinho Lopes” não racharia “por Domingos, porque é o treinador escolhido para o projecto e recuar na [sua] contratação representa, na perspectiva dos dirigentes, um passo atrás que pode ser uma vulnerabilidade directiva”.

Parece-me que ao rescindir com Paciência – ficando ainda por quantificar o valor respectivo – a equipa directiva tenta obter outro tipo de resultados: baixar a pressão sobre os resultados desportivos, ironicamente não querendo deixar à competência de Paciência o jogo da primeira mão contra o Legia, em Varsóvia na próxima quinta-feira e naturalmente beneficiar do efeito da chicotada psicológica. Um técnico escolhido por critérios de competência e experiência no futebol português, para encabeçar um projecto plurianual, é deixado cair por insuficiência de resultados no curto prazo. Para o seu lugar é escolhido um potencial símbolo do Clube, com experiência técnica manifestamente curta mas com aparente capacidade motivacional e de liderança para arrancar melhores desempenhos de dum dos melhores plantéis do Sporting nos últimos anos.

Os Luíses  – Duque e Lopes – decidiram, com este acto, proteger a estabilidade directiva a custo do projecto desportivo. Desta forma, abandonam um projecto que Lopes tinha protegido pouco mais de 24 horas antes, na abertura da iniciativa “Pensar Sporting”, promovida para AAS. Torna-se claro pela inversão tão rápida que não é, tal como parecia, Godinho Lopes que manda no futebol Sportinguista. Talvez se compreenda agora melhor o aparente silêncio de Duque nas funções de vice-presidente  – tem estado demasiado ocupado a ser efectivamente o Presidente.

Este acto de gestão vai ser colado a pressões de adeptos, mas a verdade é que os Sportinguistas foram, de uma forma geral, surpreendidos com esta movimentação. Se se queria demitir Domingos com base no desempenho desportivo, o que mudou na Madeira? Conseguimos o apuramento para a final da Taça, apesar de mais uma vez averbarmos uma derrota para o campeonato. Do ponto de vista do desempenho desportivo, não se pode dizer que tenham surgido razões para a rescisão.

Talvez o critério tenha sido consistência e qualidade futebolística. Mas neste caso, deveria ter sido imperioso para os gestores a defesa do projecto apregoado. Isso significaria passar a métodos  avançados de motivação e pressão sob a equipa técnica para que esta conseguisse melhores resultados. Internamente, isso passaria por fazer passar uma mensagem de exigência, de corte com a abordagem das variadas e permanentes desculpas e atenuantes que, embora possam existir, não poderiam condicionar o trabalho nem a comunicação da equipa técnica. Nunca deixar cair aquele que seria o responsável técnico pelo projecto.

Parece-me que os critérios de exigência e competência que deveriam ser fundamentais na gestão do Sporting não serão as maiores prioridades dos seus gestores. E suspeito que os desenvolvimentos não pararão por aqui nos próximos dias.

Uma palavra ainda para Ricardo Sá Pinto. Apesar da experiência que já tem com o clube, em várias funções, o mais provável é que seja mais um projecto de treinador-símbolo leonino a ser queimado no que têm sido a gestão leonina dos últimos anos. Esperemos que não – e acima de tudo, que possa sobreviver a esta direcção. Seria um excelente sinal.

Uma Taça delicada

Na próxima quarta-feira joga-se o acesso à tão desejada final da Taça de Portugal. Mas parece-me que se joga também a auto-estima dos sportinguistas e a sua vontade em continuar a manter o circo de vaidades e egos mal equilibrados que tem sido o futebol Sportinguista nos tempos mais recentes, da presidência do Clube e da SAD até ao plantel principal.

Deste jogo, às 20h15 no estádio da Choupana, também parece depender a estabilidade do projecto presentemente implementado para o futebol leonino. Na incapacidade de impor um nível de brio equivalente ao investimento que foi feito, a direcção e equipa técnica falharam até as expectativas que pretendiam – e bem – realistas.

Não deveria ter sido – e não foi – exigido qualquer título, mas impunha-se outra capacidade de empenho, determinante na obtenção de vitórias nos relvados. Godinho Lopes e as suas equipas continuam a não conseguir fazer reflectir o peso da camisola verde e branca e das expectativas dos seus milhões de adeptos em resultados satisfatórios.

Muitas coisas falharam e têm vindo a falhar nos últimos meses, desde a formação a idealização do plantel até ao escalonamento e posicionamento táctico e estratégico dos jogadores no relvado, de tal forma que se tem desperdiçado aquele que será o aspecto mais positivo desta época: a motivação e agregação dos sócios e adeptos Sportinguistas no seu regresso aos estádios.

Tal como já tinha referido, tem faltado a centelha de esforço, dedicação e devoção obrigatória em qualquer equipa do Sporting. Infelizmente, a manipulação e adulteração por parte dos meios de comunicação social e por parte das equipas de arbitragem fazem parte de jogar, treinar ou dirigir pelo Sporting. Por isso mesmo, apenas conseguiremos vencer se houver entrega, defesa da camisola acima de interesses pessoais, profissionalismo e abnegação. Do topo ao fundo da estrutura. Tanto na procura de futebol apoiado e golos, como na gestão de activos e em quaisquer negociações – sempre e apenas com os melhores interesses do Sporting Clube de Portugal em mente.

O Sporting tem de vencer – e se não o fizer, algo terá que ser feito. Poderá não implicar qualquer mudança directiva ou técnica – mas algo terá que ser feito. O fracasso não pode ser mais uma vez relativizado num clube com a história que tem e com a importância que (ainda) representa para milhões de pessoas.

Auditoria para investidor ver

Aproxima-se um momento demasiado fulcral na vida do Sporting Clube de Portugal e dos Sportinguistas para que consiga reflectir em qualquer outro assunto, genuíno ou artificialmente criado.

Tal como qualquer adepto ou sócio Sportinguista minimamente interessado poderia saber, o universo empresarial Sporting encontra-se num estado de falência técnica. Esta noção é reforçada pela muito antecipada auditoria, cujo resumo foi apresentado hoje e que será apresentada amanhã aos meios de comunicação social. Esta auditoria acompanha a “evolução da situação patrimonial do Grupo Sporting, numa perspectiva financeira consolidada, no período decorrente entre 1 de Agosto de 1998 e 26 de Março de 2011”. Ou seja, desde a admissão da Sporting SAD em bolsa, na fase final do consulado José Roquette, até ao fim do consulado Bettencourt.

As conclusões do resumo apresentado destacam os resultados líquidos negativos consolidados em quase todas as épocas, os fluxos de tesouraria negativos em quase todas as épocas e o elevado nível de financiamento. Ou seja, o Sporting Clube de Portugal, desde a idealização e criação da SAD até aos dias de hoje, não tem conseguido gerar valor quer logo no balanço da tesouraria (vendendo mal) quer nos seus resultados líquidos consolidados (gerindo mal), tendo portanto adquirido um comportamento de financiamento bancário instintivo e compulsivo (financiando mal) de forma a conseguir manter o seu modelo de negócio.

Pessoalmente, identifico também como muito preocupante o balanço negativo de imobilizações corpóreas e incorpóreas. A conversão de todo o património imobiliário existente em 1998 no novo estádio e academia que (ainda) pertencem ao clube terá custado 23 M€ e foi  acompanhada e implementada em parte por alguns elementos ainda presentes na estrutura directiva do Sporting. A Academia Sporting, sendo uma das melhores do mundo e em conjunção com as discutíveis capacidades de prospecção e negociação dos gestores desportivos (alguns dos quais ainda em funções), não permitiu equilibrar um saldo de quase 60M€ negativos na evolução do património mobiliário.

Esta auditoria não inclui a avaliação da componente de gestão, o que poderia contribuir para atribuir caras e actos específicos à gestão que tem governado o Sporting – no entanto, permite identificar traços gerais do modelo de funcionamento do universo Sporting. Não sendo o “instrumento de trabalho” que poderia ser, esta auditoria permitirá ainda assim identificar que a gestão no período de referência não foi a melhor. Longe disso.

Não se trata de algo que possa ser relativizado em face do que se passa nos outros clubes ou no sector em geral – o Sporting não tem espaço de manobra quer interno quer externo para viver assim tanto no fio da navalha.

Chegamos assim ao momento presente: uma época marcada por um planeamento arriscado mas ambicioso de gestão desportiva,  curiosamente equilibrado por uma gestão de expectativas cuidadosa. Infelizmente os resultados desportivos não têm sido consistentemente bons, enquanto que os resultados administrativos e contabilísticos das últimas épocas só podem ser resumidos como desastrosos.

Suspeito que algures nos próximos meses será convocada uma Assembleia Geral do Sporting para votar uma hipotética entrada de capital privado na SAD. Em si própria, parece ser uma boa ideia – especialmente admitindo a manutenção do estilo de vida e gestão do universo Sporting em geral e da Sporting SAD em particular. No entanto, também significa a abertura de uma caixa de Pandora – a eliminação dos sócios na vida e gestão do futebol do Clube, a utilização da equipa como entreposto para a especulação, a conversão da SAD num depósito de dívidas importadas pelo acionista, a transformação de um clube com história num brinquedo caro de um qualquer excêntrico, ou o aprofundamento de um poço escuro de gestão danosa – só a experiência poderá mostrar as consequências da abertura da SAD a investidores.

É fulcral que os Sportinguistas preparem desde já a sua resposta.