Ganhar para mudar

O futebol português tem sido influenciado por uma tendência de transformação em espectáculo cénico e maniqueísta a custo da sua componente desportiva, honesta e honrada. Poder-se-á até dizer que sempre assim foi, que faz parte da sua natureza e génese, até como expressão cultural das sociedades portuguesas de que tem feito e faz parte.

Este processo não resulta da central importância que o desporto tem na sociedade e no modo de vida português, nem da transfiguração da natureza de um desporto cuja prática é fortemente mediatizada. Trata-se tão simplesmente de uma canibalização literal. O futebol é visto e instrumentalizado apenas como uma via de promoção, de ascenção social e de obtenção de pequenos (e grandes) poderes. Lentamente, o mérito desportivo e a importância do desempenho e da competência foram substituídas por manipulações discretas e grosseiras, clubites, serventilismo e especulação.

Não há espaço para falsos moralismos – o futebol não é o desporto nacional. É o teatro de marionetas nacional. O país que se diz focado no futebol prefere resumos de 30 segundos sem espaço para transmitir seja o que for para além do resultado final. Prefere campeonatos e taças falseados. Prefere mercados de contratações e expectativas perigosamente inflacionados. Prefere campanhas de influenciação à arbitragem e da arbitragem. Prefere primeiras páginas e manchetes orelhudas e mal-cheirosas. Prefere meios de comunicação social que programem e condicionem. Prefere polémicas e contra-polémicas.

O Sporting e os Sportinguistas têm que reflectir seriamente sobre o papel que querem desempenhar neste sistema. Se dele querem fazer parte, ou se preferem funcionar fora e contra o sistema. Para tal, embora só alegoricamente, muito contribuem os resultados desportivos obtidos limpa e desportivamente. Porque numa altura em que o sistema nos empurra para fora, para baixo, temos que encontrar em nós próprios forças para acreditar que o futebol que queremos não é isto.

Que é possível transformar o futebol português como fenómeno cultural e desportivo em algo mais limpo, inclusiva e principalmente dentro da nossa própria estrutura e organização.

Nos próximos dez dias temos três magistrais oportunidades para assim contribuirmos mais um pouco para a regeneração leonina. Disputamos três encontros contra três das equipas mais sujas do futebol português, dois deles em casa. Todos os verdadeiros leões têm de se unir apesar do ruído mediático, político e sistémico e demonstrar que o que nos interessa como leões é o desporto – é a vitória limpa.

Unidos, não precisaremos de filtros coloridos que nos impeçam de ver a realidade tal como é, não precisaremos de campos inclinados nem de equipas alheias sob a alçada directiva. Basta-nos jogar melhor e marcar mais do que eles, jogo após jogo.

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About Reflexivo Leonino

Sportinguista reflexivo.

Posted on 6 Janeiro, 2012, in Época 2011/2012, Dirigismo, Futebol, Sistema, Sporting. Bookmark the permalink. 3 comentários.

  1. Soberbo texto, não poderia estar mais de acordo. A solução para os problemas do clube passa por competência desportiva. Tudo o mais (que existe) só ganha relevo se demonstrarmos a primeira. Reflexivo falámos há uns tempos no Inverno rigoroso. Esse Inverno tem-se mostrado, para já, demasiado rigoroso. Acredito no entanto (passe as repetições) que ele não é tão rigoroso quanto isso: temos ficado muito aquém do desempenho que teríamos obrigação – com os recursos que possuímos – de mostrar.

    Fora do futuro imediato da equipa do Sporting: o futebol Português é muito aquilo que este texto lê. Desde adeptos, dirigentes, imprensa, a quase tudo. Por isso faz-me confusão ler aqueles que dizem “dever o Sporting estar por dentro do sistema”, como se fazer parte desse meandro fosse desejável ou sequer aconselhável.
    O Sporting tem 30 jogos de campeonato pela frente, todos os anos.
    Se fizer o seu trabalho, acumulará títulos. É tão simples quanto isto.

    De regresso ao Inverno: respostas? 3 contratações.
    Não sei se boas, ou más.
    Sei que pessoalmente fico preocupado com este tipo solução. Nesta altura, em cima deste plantel, com todos os dados que se conhece. Enfim.

  2. O inverno tem sido demasiado rigoroso, de facto. A mim, parece-me ter sido uma consequência natural do desgaste do esquema de jogo possível num plantel praticamente novo; jogar em tensão, sempre com muita entrega física e garra. A qualidade de jogo tem vindo a decair quase linearmente, em particular devido às peças mais influentes e desgastadas.
    As contratações podem desempenhar um papel importante para melhorar os resultados, por representar mais frescura física e soluções para algumas posições mais deficitárias. Mas não traz aquilo que efectivamente precisávamos – nem nada o podia trazer – uma equipa rotinada, segura e conhecedora de si própria.

    Obrigado e abraço

  3. Reflexivo, desculpa só agora ter lido a resposta: penso por vezes nisso, será preciso mais tempo, mais um jogador-chave, mais alguma coisa que o Domingos saiba o que é mas não tem. Não é compltamente fácil perceber o que falta ao Sporting, pelo menos a mim não é, o que causa um fenómeno estranho:
    Ao mesmo tempo olho para o Domingos e não quero outro treinador.
    Olho para a equipa do Sporting e ela tem muitas soluções de muita qualidade.
    Mas por algum motivo, jogamos pouco. Duvido que a resposta sejam 3 contratações em Janeiro, pese embora tenha fundamentadas esperanças no central: é um jogador interessante.

    Mas sobre o tempo ou as rotinas: quanto tempo precisou o Mourinho para pôr a sua equipa a carburar?, ou o Jesus em 2009? Ou o Peseiro em 2004/05? Por outro lado, quantas vezes vemos o Manchester sofrer épocas miseráveis sem que nada de bom aconteça? Muitas.

    Não é fácil avaliar, e pessoalmente tenho muito medo do jogo de Braga.
    Mais do que o jogo de amanhã. Um abraço.

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