Monthly Archives: Janeiro 2012

Reflexão para Olhão

Os últimos dias têm sido pródigos em polémicas e acções mediáticas que, podendo ser justificadas ou não, têm permitido escudar a equipa principal e o seu futebol do calor abrasador dos holofotes. Poder-se-ia até dizer que esse é um traço constante na nova direcção do Sporting – as tentativas de proteger o desenvolvimento desportivo por via da criação de barreiras de ruído mediático. No entanto, a forma descuidada e cacofónica como esta estratégia tem sido levada a cabo, aliada à incapacidade de compreender as relações entre o impacto mediático e o desempenho desportivo  e potenciada pela sempre presente “tendenciosite” mediática contra o Sporting pode acabar por comprometer mais do que ajudar à estabilização das hostes leoninas.

Naquele que me parece o exemplo recente mais grave, como se compreende que o Presidente venha expor mediaticamente o treinador e restante equipa técnica que deveria proteger e apoiar, sem aparente razão para precipitar a sua análise? Não digo que não o responsabilizasse, mas que deveria tê-lo feito internamente, sem criar pressão mediática e sem dar a entender que está preparado para tirar o tapete à equipa técnica se e quando se sentir ele próprio (e a estrutura que comanda) mais pressionado por parte dos sócios.

Uma nota ainda para o caso Bojinov. Talvez fruto de ansiedade e de uma falha de compreensão da ordem hierárquica e da sua própria importância no plantel e principalmente pelo acto irreflectido que foi a agressão a Matías Fernandez, o búlgaro parece ter cavado a sua própria sepultura no Sporting, voluntariando-se para um auto-de-fé. Ainda não teria mostrado o suficiente para ser considerado uma mais-valia desportiva, mas ainda assim é triste que um acto irreflectido de um “activo” possa obrigar a reconsiderar a gestão desportiva do plantel, para além do provável desperdício de dois pontos na fase de grupos na Taça da Liga.

Espera-se que no meio de tantas comparações estatísticas, manobras de pressão internas e externas à gestão técnica do futebol do Sporting e manobras de diversão decorativas, Domingos e a sua equipa tenham encontrado maneira de rejuvenescer tanto táctica como animicamente a abordagem da equipa ao jogo jogado, tendo que o demonstrar já amanhã, em Olhão. Pela amostra dada pelos seus superiores hierárquicos a sua continuação no posto depende disso, ironicamente comprometendo a viabilidade do proclamado projecto de revitalização do futebol leonino que pretendem encabeçar.

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Falta uma transição anímica

O Inverno está a ser bem mais rigoroso do que devia ser. Sucederam-se alguns jogos mal conseguidos, onde tem faltado principalmente capacidade emocional e motivação para aguentar a pressão dos encontros e dos momentos mais decisivos. O que nos tem limitado mais está dentro do campo – posições demasiado rígidas, falta de criatividade para encontrar linhas em direcção à baliza adversária, erros defensivos e de finalização decisivos e de palmatória.

Neste momento e para esta época apenas restam as Taças, a Liga Europa e a esperança de uma segunda volta da Liga mais condizente com o que o Clube merece. Uma frase funcionalmente muito semelhante a dizer que batalhamos em todas as frentes, ainda que com possibilidades de sucesso bastante condicionadas na Liga. Estas frases, embora semelhantes, representam abordagens opostas, principalmente no que diz respeito à capacidade de mobilização da equipa, dos jogadores e dos adeptos.

Na diferença entre estes duas abordagens reside a chave do que se seguirá. Não se pode dizer que a evolução desportivos nos últimos meses tenha sido merecida – exceptuando alguns trechos medíocres, ocasionalmente compensados com garra e coração, todos os jogos foram pelo menos bem disputados, sendo que em alguns deles  merecíamos até vencer. A diferença? Atitude. Garra. Motivação. Algo que permitisse ganhar mais aquela bola dividida, rematar mais pragmaticamente para o fundo das redes, ou corrigir em esforço um erro defensivo de outra forma letal.

Neste momento, faz mais falta ao Sporting a ambição de entrar em cada partida para vencer, o peso de honrar o leão e a sua história, a força para cerrar os dentes e ultrapassar as limitações, do que grandes revoluções estratégicas e tácticas. Do que um reforço para o plantel. Do que apoio nas bancadas.

Estes elementos já os temos a todos, e em maior quantidade do que nos últimos anos. Esta equipa do Sporting teve a sorte de ter assegurada uma equipa técnica indiscutivelmente competente bem cedo no processo de preparação da época. Esta equipa do Sporting reforçou-se, mal ou bem, confortavelmente ou a custo do futuro próximo, mais do que alguma vez tinha feito numa só época. Esta equipa do Sporting tem sido acompanhada por um regresso dos seus sócios e adeptos aos estádios em claro contra-ciclo.

Falta só transmitir para dentro de campo aquele que é o imperativo leonino, em todas as modalidades em que participa: esforçar, dedicar e devotar para que assim possa conquistar a glória. Sem desculpas e apesar das condicionantes. Sem relativizações nem bodes expiatórios. Vencer pela entrega, pela crença. E é principalmente nos ombros de Domingos Paciência, Luís Duque e Godinho Lopes que assenta a responsabilidade para promover mais esta mudança no Sporting.

 

Deixo ainda uma nota acerca do papel que os meios de comunicação social têm neste tipo de situações, para a qual já tinha alertado em Outubro. Os ciclos de ascensão e queda tendem a ser magnificados – e potenciados – pela comunicação social. O exercício descontextualizante e maquiavélico de comparar o desempenho desta época com o da época passada demonstra isso mesmo. Principalmente levando em conta as últimas eleições (não só os resultados mas também a envolvente polarizante e quase fratricida que a enquadrou), tem-se vindo a tornar cada vez mais fácil vender à custa dos Sportinguistas. Aceitemos que temos problemas internos por resolver. Ainda assim, a sua resolução não se pode sobrepor à dos problemas externos, nem deve ser feita através ou em benefício de quem nos maltrata e instrumentaliza.

Ganhar para mudar

O futebol português tem sido influenciado por uma tendência de transformação em espectáculo cénico e maniqueísta a custo da sua componente desportiva, honesta e honrada. Poder-se-á até dizer que sempre assim foi, que faz parte da sua natureza e génese, até como expressão cultural das sociedades portuguesas de que tem feito e faz parte.

Este processo não resulta da central importância que o desporto tem na sociedade e no modo de vida português, nem da transfiguração da natureza de um desporto cuja prática é fortemente mediatizada. Trata-se tão simplesmente de uma canibalização literal. O futebol é visto e instrumentalizado apenas como uma via de promoção, de ascenção social e de obtenção de pequenos (e grandes) poderes. Lentamente, o mérito desportivo e a importância do desempenho e da competência foram substituídas por manipulações discretas e grosseiras, clubites, serventilismo e especulação.

Não há espaço para falsos moralismos – o futebol não é o desporto nacional. É o teatro de marionetas nacional. O país que se diz focado no futebol prefere resumos de 30 segundos sem espaço para transmitir seja o que for para além do resultado final. Prefere campeonatos e taças falseados. Prefere mercados de contratações e expectativas perigosamente inflacionados. Prefere campanhas de influenciação à arbitragem e da arbitragem. Prefere primeiras páginas e manchetes orelhudas e mal-cheirosas. Prefere meios de comunicação social que programem e condicionem. Prefere polémicas e contra-polémicas.

O Sporting e os Sportinguistas têm que reflectir seriamente sobre o papel que querem desempenhar neste sistema. Se dele querem fazer parte, ou se preferem funcionar fora e contra o sistema. Para tal, embora só alegoricamente, muito contribuem os resultados desportivos obtidos limpa e desportivamente. Porque numa altura em que o sistema nos empurra para fora, para baixo, temos que encontrar em nós próprios forças para acreditar que o futebol que queremos não é isto.

Que é possível transformar o futebol português como fenómeno cultural e desportivo em algo mais limpo, inclusiva e principalmente dentro da nossa própria estrutura e organização.

Nos próximos dez dias temos três magistrais oportunidades para assim contribuirmos mais um pouco para a regeneração leonina. Disputamos três encontros contra três das equipas mais sujas do futebol português, dois deles em casa. Todos os verdadeiros leões têm de se unir apesar do ruído mediático, político e sistémico e demonstrar que o que nos interessa como leões é o desporto – é a vitória limpa.

Unidos, não precisaremos de filtros coloridos que nos impeçam de ver a realidade tal como é, não precisaremos de campos inclinados nem de equipas alheias sob a alçada directiva. Basta-nos jogar melhor e marcar mais do que eles, jogo após jogo.