Auditoria para investidor ver

Aproxima-se um momento demasiado fulcral na vida do Sporting Clube de Portugal e dos Sportinguistas para que consiga reflectir em qualquer outro assunto, genuíno ou artificialmente criado.

Tal como qualquer adepto ou sócio Sportinguista minimamente interessado poderia saber, o universo empresarial Sporting encontra-se num estado de falência técnica. Esta noção é reforçada pela muito antecipada auditoria, cujo resumo foi apresentado hoje e que será apresentada amanhã aos meios de comunicação social. Esta auditoria acompanha a “evolução da situação patrimonial do Grupo Sporting, numa perspectiva financeira consolidada, no período decorrente entre 1 de Agosto de 1998 e 26 de Março de 2011″. Ou seja, desde a admissão da Sporting SAD em bolsa, na fase final do consulado José Roquette, até ao fim do consulado Bettencourt.

As conclusões do resumo apresentado destacam os resultados líquidos negativos consolidados em quase todas as épocas, os fluxos de tesouraria negativos em quase todas as épocas e o elevado nível de financiamento. Ou seja, o Sporting Clube de Portugal, desde a idealização e criação da SAD até aos dias de hoje, não tem conseguido gerar valor quer logo no balanço da tesouraria (vendendo mal) quer nos seus resultados líquidos consolidados (gerindo mal), tendo portanto adquirido um comportamento de financiamento bancário instintivo e compulsivo (financiando mal) de forma a conseguir manter o seu modelo de negócio.

Pessoalmente, identifico também como muito preocupante o balanço negativo de imobilizações corpóreas e incorpóreas. A conversão de todo o património imobiliário existente em 1998 no novo estádio e academia que (ainda) pertencem ao clube terá custado 23 M€ e foi  acompanhada e implementada em parte por alguns elementos ainda presentes na estrutura directiva do Sporting. A Academia Sporting, sendo uma das melhores do mundo e em conjunção com as discutíveis capacidades de prospecção e negociação dos gestores desportivos (alguns dos quais ainda em funções), não permitiu equilibrar um saldo de quase 60M€ negativos na evolução do património mobiliário.

Esta auditoria não inclui a avaliação da componente de gestão, o que poderia contribuir para atribuir caras e actos específicos à gestão que tem governado o Sporting – no entanto, permite identificar traços gerais do modelo de funcionamento do universo Sporting. Não sendo o “instrumento de trabalho” que poderia ser, esta auditoria permitirá ainda assim identificar que a gestão no período de referência não foi a melhor. Longe disso.

Não se trata de algo que possa ser relativizado em face do que se passa nos outros clubes ou no sector em geral – o Sporting não tem espaço de manobra quer interno quer externo para viver assim tanto no fio da navalha.

Chegamos assim ao momento presente: uma época marcada por um planeamento arriscado mas ambicioso de gestão desportiva,  curiosamente equilibrado por uma gestão de expectativas cuidadosa. Infelizmente os resultados desportivos não têm sido consistentemente bons, enquanto que os resultados administrativos e contabilísticos das últimas épocas só podem ser resumidos como desastrosos.

Suspeito que algures nos próximos meses será convocada uma Assembleia Geral do Sporting para votar uma hipotética entrada de capital privado na SAD. Em si própria, parece ser uma boa ideia – especialmente admitindo a manutenção do estilo de vida e gestão do universo Sporting em geral e da Sporting SAD em particular. No entanto, também significa a abertura de uma caixa de Pandora – a eliminação dos sócios na vida e gestão do futebol do Clube, a utilização da equipa como entreposto para a especulação, a conversão da SAD num depósito de dívidas importadas pelo acionista, a transformação de um clube com história num brinquedo caro de um qualquer excêntrico, ou o aprofundamento de um poço escuro de gestão danosa - só a experiência poderá mostrar as consequências da abertura da SAD a investidores.

É fulcral que os Sportinguistas preparem desde já a sua resposta.

Sobre Reflexivo Leonino

Sportinguista reflexivo.

Posted on 1 Fevereiro, 2012, in Época 2011/2012, Dirigismo, Reflexivo, Sporting. Bookmark the permalink. 1 Comentário.

  1. Primeiro, agradeço o teu comentário no meu site.

    Sobre o que aqui escreves, deixa-me afirmar que concordo com o que escreves. Aliás, uma das suas ideias, a de dar um rosto a uma decisão, permitindo identificar o decisor, foi por mim defendida quando a possibilidade de uma auditoria superou esse perímetro, digamos assim, o da mera possibilidade, tornando-se real, apesar de a auditoria hoje disponibilizada não ser suficiente. Não só é suficiente, como carece de legitimidade, mas isso são assuntos que nós estamos já, infelizmente, habituados.

    Amanhã, depois de o meu artigo marinar por um bocadito na blogoesfera, vou tratar de fazer uma ligação directa a este mesmo artigo.

    Este é, como bem o sabemos, e assim o receamos, um momento vital na história do Sporting. Muito acontece nos bastidores, sem que os sócios, principalmente, sejam informados das intenções reais de quem negoceia o futuro do Sporting.

    Eu farei questão de desenvolver as minhas ideias, no meu blogue, sobre a possibilidade de investimento externo no Sporting. Não sou contra, pelo contrário, mas este é um problema que deve ser adicionado a um outro, o dos VMOC. A este respeito, nada de significativo nos é informado da parte do actual elenco administrativo.

    Saudações Leoninas

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